Copom vê inflação pressionada até 2028 e reduz espaço para cortes da Selic

A ata mais recente do Copom indica que a inflação pode permanecer pressionada até 2028, ampliando as incertezas sobre o ritmo de cortes da Selic.

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05 de maio, 2026 às 14:55
Fotografia aérea do edifício-sede do Banco Central do Brasil em Brasília. Imagem: Raphael Ribeiro

A ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe um novo alerta para o cenário econômico brasileiro: a inflação pode permanecer desancorada até 2028, reduzindo o espaço para novos cortes da Selic nos próximos meses. A sinalização veio após o corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, que agora está em 14,50%, e foi divulgada nesta terça-feira (5), em meio a um cenário global mais incerto e pressões inflacionárias persistentes.

O documento do Copom indica que, apesar de sinais de desaceleração gradual da atividade econômica, o quadro ainda exige cautela. A combinação entre mercado de trabalho aquecido, inflação corrente elevada e choques externos, como o conflito no Oriente Médio, levou o Banco Central a reforçar a necessidade de uma política monetária mais restritiva por mais tempo.

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Um dos pontos mais relevantes da ata é a menção inédita ao horizonte de 2028 como parte do risco de desancoragem das expectativas de inflação. Isso significa que o Banco Central passou a enxergar um cenário mais prolongado de pressão inflacionária, o que foge do intervalo tradicional de análise da política monetária.

Na prática, isso reduz a margem para cortes mais agressivos da Selic no curto prazo. Economistas destacam que esse é um sinal claro de que o ciclo de afrouxamento monetário pode ser mais lento do que o esperado anteriormente.

Além disso, as projeções de inflação seguem acima da meta estabelecida pelo Banco Central, com estimativas de 4,9% para 2026 e 4,0% para 2027. Esse comportamento reforça a avaliação de que a inflação ainda não está totalmente sob controle, mesmo com juros em patamar elevado.

Guerra no Oriente Médio aumenta incertezas sobre juros e inflação

Outro fator decisivo no cenário analisado pelo Copom é o impacto do conflito no Oriente Médio. O aumento dos preços do petróleo já começou a afetar combustíveis e fretes, mas o principal risco está nos chamados efeitos de segunda ordem.

Esses efeitos ocorrem quando a alta inicial de preços se espalha para toda a cadeia produtiva, atingindo custos de produção, salários e expectativas de inflação. Caso isso aconteça de forma mais intensa, o impacto pode ser duradouro e exigir uma postura ainda mais rígida do Banco Central.

Economistas avaliam que a duração e a intensidade do conflito são variáveis cruciais para determinar o comportamento da política monetária nos próximos meses.

Juros podem cair mais devagar do que o previsto

O corte recente de 0,25 ponto percentual levou a Selic a 14,50%, mas o mercado já revisa suas projeções. A leitura predominante é de que o ciclo de cortes pode continuar, porém em ritmo mais lento ou com reduções menores.

O próprio comunicado do Copom reforça que qualquer decisão futura dependerá da evolução do cenário econômico e de novas informações sobre inflação e atividade.

Na avaliação de analistas, isso abre espaço para novos cortes, mas com maior cautela, especialmente diante da possibilidade de deterioração adicional do cenário inflacionário.

Atividade econômica desacelera, mas mercado de trabalho segue aquecido

Apesar das preocupações com inflação, a ata também destaca sinais de desaceleração da economia brasileira. Um dos principais pontos é a contração do crédito, que começa a impactar o ritmo de crescimento.

No entanto, o mercado de trabalho ainda apresenta força, com renda real em crescimento acima da produtividade. Esse desequilíbrio mantém a pressão sobre preços e dificulta uma queda mais rápida da inflação.

Esse conjunto de fatores faz com que o Banco Central mantenha uma postura considerada restritiva, mesmo com o início do ciclo de cortes.

Riscos fiscais e cenário externo também pesam nas decisões

Além da inflação e da atividade econômica, o Copom também observa riscos fiscais e incertezas globais como elementos adicionais de atenção. O comportamento da economia internacional, especialmente em relação a energia e cadeias produtivas, pode influenciar diretamente a trajetória da Selic.

O mercado, inclusive, já ajusta suas expectativas. Segundo projeções recentes, a taxa básica pode encerrar 2026 entre 12,75% e 13,5%, dependendo do ritmo dos cortes e da evolução da inflação.

O Boletim Focus também aponta queda gradual da Selic até 2028 e 2029, mas com incertezas crescentes sobre o ritmo desse processo.