Tesouro cancela leilão e IPCA+ pode chegar a 10% ao ano
IPCA+ 10% ao ano no horizonte: Tesouro cancela leilão de NTN-B para evitar emissão em momento de alta volatilidade. Veja o que fazer com sua carteira.
Foto: Getty Images
O mercado passa a vislumbrar IPCA+ 10% ao ano como uma possibilidade real para os títulos do Tesouro Direto. Nesta segunda-feira, 22 de junho de 2026, o Tesouro Nacional cancelou o leilão de NTN-B previsto para amanhã, terça-feira (23). A decisão sinalizou ao mercado que as taxas dos títulos indexados ao IPCA atingiram um nível de estresse que o governo não quer validar, ao menos por enquanto.
Dessa forma, a perspectiva de IPCA+ 10% ao ano reflete a convergência de pressões internas e externas sobre a renda fixa brasileira. Portanto, qualquer investidor com posições em Tesouro Direto, CDBs IPCA+, debêntures incentivadas ou fundos de crédito precisa entender o que está acontecendo, e como se posicionar.
Por Que o Tesouro Cancelou o Leilão de NTN-B?
A justificativa oficial do Tesouro Nacional foi preservar o “bom funcionamento do mercado de títulos públicos”. Contudo, na prática, especialistas interpretaram o cancelamento como uma estratégia de gestão da dívida: evitar emissões em momento de alta volatilidade e não “carimbar” taxas excessivamente altas como referência para toda a curva.
Em outras palavras, se o Tesouro emitisse NTN-Bs hoje pagando juros próximos a IPCA+ 10% ao ano, validaria esse patamar no mercado secundário. Além disso, criaria um precedente que poderia ampliar ainda mais as taxas nos dias seguintes. Portanto, o Tesouro preferiu aguardar um ambiente mais estável para retomar as emissões.
De acordo com Bruno Perri, economista e sócio-fundador da Forum Investimentos, o mercado precifica um cenário de forte estresse resultado da combinação entre fatores externos e domésticos. No exterior, investidores passaram a trabalhar com juros elevados por mais tempo, especialmente nos EUA. No Brasil, o cenário inclui inflação persistente, expectativas desancoradas e uma comunicação do Banco Central que gerou questionamentos no mercado.
IPCA+ 10% ao Ano: Até Onde os Juros Podem Ir?
Os especialistas divergem sobre o teto das taxas, mas concordam que o cenário ainda comporta novas altas. Para Fernando Benavenuto, sócio da Anvex Capital, taxas entre IPCA+ 8,7% e IPCA+ 9% não podem ser descartadas caso persistam as dúvidas sobre o quadro fiscal e a trajetória da inflação.
Já Perri é mais agressivo em sua projeção: o Tesouro IPCA+ 2032 poderia alcançar entre IPCA+ 9,5% e IPCA+ 10% ao ano em um cenário de maior estresse. Contudo, ambos destacam que os níveis atuais já embutem um prêmio historicamente elevado. Por isso, para investidores com horizonte de longo prazo, o momento pode ser de oportunidade.
Para entender o que são os títulos indexados ao IPCA e como funcionam, acesse melhorinvestimento.net.
Vale Investir no Tesouro IPCA+ Agora?
A resposta depende do horizonte e do perfil do investidor. Para quem pretende carregar o papel até o vencimento, travar IPCA+ 10% ao ano representaria uma rentabilidade historicamente extraordinária, bem acima dos 4% a 5% reais dos anos anteriores. Além disso, os títulos do Tesouro têm o menor risco de crédito existente: a garantia do governo federal.
Contudo, há um risco fundamental que os investidores precisam considerar: a marcação a mercado. Quem compra uma NTN-B hoje e precisar vender antes do vencimento pode sofrer perdas caso as taxas continuem subindo. Dessa forma, o Tesouro IPCA+ é adequado apenas para quem tem horizonte compatível com o prazo do título.
Por outro lado, para quem tem perfil de longo prazo, a situação atual abre uma janela histórica. Afinal, IPCA+ 10% ao ano significa que R$ 10 mil investidos hoje valeriam mais de R$ 25 mil em termos reais em 10 anos, o poder de compra mais que dobraria independentemente de quanto a inflação suba.
O Que Explica a Disparada das Taxas do IPCA+?
As taxas dos títulos indexados ao IPCA acumulam alta contínua em 2026 por conta de múltiplos fatores. Em primeiro lugar, o Federal Reserve americano mantém uma postura mais dura do que o esperado, elevando os juros globais e pressionando os prêmios de risco dos emergentes como o Brasil.
Além disso, as preocupações fiscais domésticas persistem. O mercado monitora de perto a trajetória da dívida pública, e qualquer sinal de descontrole dos gastos tende a abrir as taxas longas dos títulos. Ao mesmo tempo, a comunicação confusa do Banco Central após o último Copom gerou incerteza adicional sobre o ritmo dos cortes na Selic. Consequentemente, os investidores passaram a exigir prêmios cada vez maiores para financiar o governo.
Após o Tesouro Cancelar o Leilão, Há Novas Intervenções no Radar?
Segundo os especialistas, sim. Perri avalia que novas ações do Tesouro, como as vistas em março de 2026, quando o órgão interveio para conter a volatilidade causada pela guerra, podem ocorrer caso o estresse persista. Ainda assim, Benavenuto ressalta que intervenções têm alcance limitado.
“Intervenções ajudam a suavizar movimentos de curto prazo, mas a ancoragem definitiva das taxas depende de uma sinalização crível sobre a trajetória das contas públicas”, afirma Benavenuto. Portanto, o mercado aguarda dados concretos, não apenas ações pontuais do Tesouro, para recalibrar suas expectativas de forma sustentável.
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