Focus: mercado eleva Selic para 13,5% e mantém IPCA acima da meta
Relatório do Banco Central mostra expectativa de juros elevados por mais tempo, inflação acima da meta e crescimento moderado da economia brasileira.
Imagem: Envato Elements.
O Banco Central do Brasil divulga nesta segunda-feira, 15 de junho de 2026, mais uma edição do Boletim Focus — o relatório semanal que consolida as expectativas do mercado financeiro para os principais indicadores macroeconômicos do país.
A publicação é aguardada com atenção especial por investidores, economistas e gestores de fundos, pois serve de termômetro para decisões de alocação de recursos e estratégias de hedge cambial.
Com base nas informações mais recentes divulgadas pelo Banco Central, referentes ao levantamento da semana anterior (encerrado em 8 de junho), o mercado projeta um cenário de juros elevados e inflação persistentemente acima da meta para 2026.
Nova previsão para Selic
A estimativa mediana para a taxa Selic ao final de 2026 subiu de 13,25% para 13,50% ao ano na última divulgação do Focus. Para 2027, a projeção avançou de 11,25% para 11,50%, refletindo a percepção de que o ciclo de aperto monetário ainda não chegou ao fim e que a normalização da política monetária será gradual.
Esse nível de juros mantém o Brasil entre as economias com maior taxa real de juro do mundo — um fator que, ao mesmo tempo, atrai capital estrangeiro para renda fixa e pressiona o custo do crédito para empresas e consumidores.
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reuniu na semana passada (dias 17 e 18 de junho serão a próxima reunião) e o mercado aguarda os próximos sinais de direção. Até o momento, a comunicação do Banco Central tem sinalizado que a trajetória da inflação permanece preocupante, especialmente no componente de serviços e alimentos.
IPCA: inflação projetada para 2026
O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), principal indicador de inflação oficial do Brasil, tem sua projeção para 2026 fixada em 5,11% pelo mercado — acima do teto da meta oficial estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), que é de 4,5% para o ano.
Para 2027, o Focus aponta recuo para 4,02%, e para 2028 a estimativa cai para 3,65% — mais próxima do centro da meta de longo prazo, de 3%. Isso sugere que o mercado acredita que a convergência inflacionária só ocorrerá de forma mais consistente no médio prazo.
Os principais fatores que pressionam o IPCA em 2026 incluem:
- Serviços: setor ainda resiste à desinflação, refletindo o mercado de trabalho aquecido;
- Energia elétrica: tarifas pressionadas pela bandeira tarifária e pelos custos de transmissão (Fio B);
- Alimentos: impacto climático e câmbio elevado encarecem produtos importados e exportáveis;
- Câmbio: dólar ainda em patamares elevados influencia insumos industriais.
PIB: crescimento revisado
A expectativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2026 foi revisada ligeiramente para cima, de 1,90% para 1,91% — crescimento modesto, mas positivo, sustentado pelo agronegócio, pelo consumo das famílias (alimentado por programas de transferência de renda e mercado de trabalho formal) e pelo setor de serviços.
Esse ritmo de expansão ainda está abaixo do potencial da economia brasileira, estimado por economistas entre 2,5% e 3% ao ano. A combinação de juros altos e incertezas no ambiente fiscal pressiona o investimento privado e desacelera o crescimento de setores como construção civil e indústria de transformação.
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Dólar
A projeção para a taxa de câmbio no final de 2026 foi revisada para baixo pelo terceiro mês consecutivo, passando de R$ 5,16 para R$ 5,15. Para 2027, a mediana do mercado caiu de R$ 5,25 para R$ 5,20 — sinal de que os analistas esperam uma ligeira valorização do real nos próximos 18 meses.
A tendência de queda reflete, em parte, o diferencial de juros favorável ao Brasil — com a Selic em 13,5% ao ano e os juros americanos em processo de normalização, o carry trade beneficia ativos brasileiros. Também pesa o saldo comercial positivo, sustentado pelas exportações do agronegócio e do setor mineral.
O que o Focus significa para os seus Investimentos?
O Boletim Focus tem impacto direto sobre diversas classes de ativos:
- Renda fixa pós-fixada: Com a Selic projetada em 13,5%, títulos atrelados ao CDI (como CDBs, LCIs, LCAs e Tesouro Selic) continuam altamente atrativos. O retorno bruto anual de um CDB 100% CDI está em torno de 13,25%, muito acima da inflação esperada de 5,11%.
- Tesouro IPCA+: Com a inflação projetada acima do teto da meta, os títulos do Tesouro atrelados ao IPCA + spread (como IPCA+ 2029 e IPCA+ 2035) continuam interessantes para proteção de longo prazo. Taxas acima de IPCA + 6% ao ano oferecem retorno real expressivo.
- Fundos imobiliários: A perspectiva de juros elevados por mais tempo pressiona os FIIs, pois o custo de oportunidade da renda fixa permanece alto. Investidores ficam mais seletivos, priorizando FIIs com contratos indexados ao IPCA e carteiras de qualidade comprovada.
- Ações: O Ibovespa costuma reagir positivamente quando o Focus aponta queda nas projeções de juros. O cenário atual, com Selic elevada, mantém pressão sobre múltiplos das empresas. Setores mais beneficiados em ambientes de juros altos incluem bancos, seguradoras e exportadoras.
Próximas reuniões do Copom
O calendário do Copom para o segundo semestre de 2026 é fator crucial para os mercados. Com a decisão de juros mais próxima prevista para agosto, os agentes econômicos estarão atentos a qualquer mudança na comunicação do Banco Central. Um tom mais hawkish (contracionista) tende a fortalecer o real e beneficiar a renda fixa, enquanto sinais de corte prematuro pressionam a inflação.
Calendário:
- 4 e 5 de agosto;
- 15 e 16 de setembro;
- 3 e 4 de novembro;
- 8 e 9 de dezembro.
É importante destacar que as atas dessas reuniões, que detalham as discussões e as justificativas para as decisões tomadas, serão publicadas às 8h da terça-feira seguinte a cada encontro.
Com Banco Central do Brasil — Boletim Focus; InfoMoney; Money Times