Saída de capital estrangeiro da B3 bate recorde e alcança R$ 14,9 bilhões

O fluxo negativo recorde na B3 reflete aumento da aversão ao risco global, guerra no Oriente Médio e maior cautela com o cenário doméstico

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Última atualização:  02 de jun, 2026 às 17:59
Gráfico de Forex em crescimento e mapa de pontos no papel de parede Blue Night City. Investimento, mercado de ações. Imagem: Envato Elements.

Os investidores estrangeiros retiraram R$ 14,91 bilhões da B3 em maio de 2026, registrando o maior fluxo mensal negativo desde o início de 2022. Os dados constam em levantamento da Elos Ayta com base nas informações divulgadas pela própria Bolsa brasileira.

O montante supera o recorde anterior de saída líquida, registrado em agosto de 2023, quando os investidores internacionais retiraram R$ 13,21 bilhões do mercado secundário brasileiro. Quando são considerados também os aportes realizados em ofertas públicas de ações (IPOs e follow-ons), o saldo negativo de maio permanece expressivo, totalizando R$ 13,27 bilhões.

Movimento reverte entrada observada no início do ano

A forte retirada de recursos ocorre após um início de ano marcado pela entrada de capital estrangeiro na Bolsa brasileira.

Na avaliação de analistas do BB Investimentos, aquele movimento teve caráter predominantemente tático, aproveitando oportunidades pontuais em mercados emergentes em um momento de menor atratividade relativa dos ativos americanos.

Segundo a instituição, não houve uma realocação estrutural de recursos para o Brasil, o que ajuda a explicar a rapidez com que o fluxo se inverteu diante da piora do cenário internacional.

Guerra no Oriente Médio aumenta aversão ao risco

Um dos principais fatores por trás da saída de recursos é o aumento das incertezas provocado pelo conflito entre Estados Unidos e Irã, iniciado no fim de fevereiro.

A guerra elevou os preços do petróleo e ampliou os receios sobre inflação global e desaceleração econômica, levando investidores a reduzir exposição a ativos considerados mais arriscados, como os mercados emergentes.

De acordo com Bruno Shahini, especialista em investimentos da Nomad, o cenário atual combina inflação elevada e estoques globais de petróleo em queda, fatores que reforçam o movimento de busca por ativos considerados mais seguros.

Apesar dos efeitos negativos para a Bolsa como um todo, algumas empresas do setor de energia foram beneficiadas pela valorização da commodity. A Petrobras, por exemplo, acumula forte alta em 2026 impulsionada pelo avanço das cotações internacionais do petróleo.

Juros nos Estados Unidos também pressionam emergentes

Outro elemento que pesou sobre o fluxo estrangeiro foi a expectativa de manutenção de juros elevados nos Estados Unidos.

Durante maio, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano atingiram os maiores níveis observados desde 2007, refletindo a percepção de que o Federal Reserve poderá manter uma postura mais rígida para conter pressões inflacionárias.

Com retornos mais atrativos na renda fixa americana, parte dos investidores reduziu posições em mercados emergentes, incluindo o Brasil.

Cenário político entra no radar dos investidores

Além das questões internacionais, o ambiente político doméstico também passou a influenciar as decisões dos investidores.

Segundo o BB Investimentos, a aproximação do calendário eleitoral tende a aumentar a volatilidade dos mercados nos próximos meses, especialmente em temas relacionados à política fiscal e à estabilidade institucional.

Embora o cenário político ainda não seja o principal fator para o comportamento dos ativos brasileiros, analistas avaliam que ele adiciona uma camada extra de cautela para investidores locais e estrangeiros.

Mercado acompanha impactos para as eleições de 2026

Em maio, uma reportagem envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, repercutiu entre investidores e instituições financeiras.

Em relatório divulgado no período, o JPMorgan avaliou que o episódio poderia influenciar as expectativas do mercado sobre a disputa presidencial de 2026.

Segundo o banco, mudanças na percepção dos investidores sobre o cenário político podem alterar as probabilidades atribuídas aos diferentes candidatos e aumentar a sensibilidade dos ativos brasileiros a novas informações relacionadas ao processo eleitoral.

Para o mercado, a combinação de riscos externos, juros elevados e incertezas domésticas continua sendo o principal desafio para uma retomada mais consistente do fluxo estrangeiro para a Bolsa brasileira.

Lucas Machado

Redator e psicólogo com quase 5 anos de experiência na produção de artigos e notícias sobre uma ampla gama de temas. Suas áreas de interesse e expertisse incluem previdência, seguros, direito sucessório e finanças, em geral. Atualmente, faz parte da equipe do Melhor Investimento, abordando uma variedade de tópicos relacionados ao mercado financeiro.