EUA mantem Pix na mira e acusam Brasil de favorecer sistema em disputa comercial
Relatório que recomenda tarifa de 25% sobre produtos brasileiros afirma que Banco Central cria vantagens ao Pix e prejudica empresas americanas de pagamentos
Imagem: Trackmob/Reprodução
O Pix entrou oficialmente na lista de críticas do governo dos Estados Unidos ao Brasil. Em relatório divulgado pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos é apontado como um exemplo de prática considerada “injusta e discriminatória” contra empresas americanas que atuam no setor de pagamentos eletrônicos.
O documento faz parte da argumentação utilizada pelo governo americano para justificar a proposta de aplicação de uma tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.
Segundo o relatório, a forma como o Banco Central do Brasil administra e regula o Pix criaria um ambiente desfavorável para companhias estrangeiras que competem no mercado de pagamentos digitais.
Governo americano vê conflito de interesses no Banco Central
Um dos principais pontos levantados pelo USTR é o fato de o Banco Central acumular duas funções dentro do sistema. Na avaliação dos americanos, a instituição atua simultaneamente como reguladora do mercado de pagamentos e como responsável pela operação do próprio Pix.
Para o governo dos EUA, essa estrutura poderia gerar um conflito de interesses ao permitir que regras regulatórias favoreçam o sistema criado pela própria autoridade monetária brasileira. O relatório afirma que a ausência de mecanismos adicionais de supervisão e proteção concorrencial contribuiria para esse cenário.
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Pix estaria recebendo tratamento preferencial, dizem os EUA
O documento também questiona algumas regras que regem o funcionamento do sistema de pagamentos instantâneos. Entre os pontos citados está a exigência de que instituições financeiras participantes ofereçam o Pix gratuitamente para pessoas físicas, além das limitações impostas às tarifas cobradas de empresas.
Segundo a avaliação americana, essas medidas acabam beneficiando diretamente o sistema brasileiro e criam custos adicionais para empresas privadas que oferecem soluções concorrentes. Na visão do USTR, os participantes do mercado são obrigados a dar visibilidade e integração ao Pix sem receber compensações financeiras equivalentes.
Relatório amplia preocupação do governo brasileiro
Além da possível adoção de tarifas comerciais, integrantes do governo acompanham com atenção os desdobramentos do relatório por outro motivo.
Há receio de que as críticas ao sistema financeiro brasileiro possam servir de base para futuras medidas adotadas por órgãos americanos, especialmente após a recente classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Nesse cenário, autoridades brasileiras monitoram a possibilidade de que discussões inicialmente comerciais avancem para áreas relacionadas à supervisão financeira e ao funcionamento de instituições bancárias.
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Pix se tornou peça central do sistema financeiro brasileiro
Lançado em 2020 pelo Banco Central, o Pix transformou a forma como brasileiros realizam pagamentos e transferências financeiras. O sistema rapidamente se tornou o principal meio de pagamento eletrônico do país, ultrapassando modalidades tradicionais como TED, DOC e, em muitos casos, até mesmo cartões de débito.
O sucesso da ferramenta é frequentemente apontado por autoridades brasileiras como um exemplo de inovação financeira e ampliação da inclusão bancária.
Por outro lado, o crescimento acelerado do sistema também ampliou a competição com empresas privadas do setor de pagamentos, tema que agora aparece no centro da disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Debate pode ganhar novos capítulos
A proposta de sobretaxa sobre produtos brasileiros ainda depende de etapas adicionais antes de uma eventual implementação.
Enquanto isso, as críticas ao Pix devem permanecer no radar das autoridades brasileiras, do setor financeiro e dos agentes de mercado, especialmente porque o relatório americano abre uma nova frente de tensão nas relações econômicas entre os dois países.
Nos próximos meses, o tema poderá se tornar um dos principais pontos de discussão nas negociações comerciais entre Brasília e Washington.