Tempestade perfeita nos alimentos ameaça inflação até 2027 e preocupa mercado
A combinação entre alta dos fertilizantes, guerra no Oriente Médio e risco de um forte El Niño em 2026 acendeu o alerta do mercado para uma nova pressão inflacionária nos alimentos.
Foto: Pixabay/Alexas_Fotos
A possibilidade de uma “tempestade perfeita” nos alimentos passou a preocupar economistas e agentes do mercado financeiro diante da combinação entre guerra no Oriente Médio, encarecimento dos fertilizantes e risco de um forte El Niño em 2026. O cenário pode elevar a inflação dos alimentos acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pelos próximos dois anos, dificultando ainda mais o trabalho do Banco Central para trazer a inflação à meta oficial de 3%.
A preocupação ganhou força nos últimos dias após análises de instituições financeiras indicarem que os efeitos climáticos e o aumento dos custos agrícolas podem pressionar tanto os preços dos alimentos in natura quanto os industrializados. O impacto seria sentido principalmente no Brasil ao longo de 2026 e 2027, atingindo itens básicos da cesta de consumo das famílias.
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Tempestade perfeita nos alimentos pode elevar pressão inflacionária
Especialistas apontam que o principal risco vem da soma de fatores simultâneos. Além do conflito internacional, que elevou o preço do petróleo e afetou a logística global, há temor sobre o abastecimento de fertilizantes, fundamentais para a produção agrícola brasileira.
Segundo economistas do mercado, produtores rurais já demonstram preocupação com a alta dos insumos e tentam negociar contratos antecipados para reduzir perdas futuras. Ainda assim, parte desses custos deve ser repassada ao consumidor final.
O efeito preocupa porque alimentação e bebidas possuem forte peso nos índices oficiais de inflação. Atualmente, o grupo representa mais de 21% do IPCA e quase um quarto do INPC, indicador que mede a inflação para famílias de menor renda.
El Niño pode agravar preços dos alimentos em 2026 e 2027
Outro ponto de atenção é a possibilidade de formação de um El Niño forte em 2026. O fenômeno climático costuma alterar o regime de chuvas e temperaturas em diversas regiões do planeta, afetando diretamente a produtividade agrícola.
No Brasil, a preocupação é maior porque o evento pode coincidir com períodos de seca no Sudeste e impactar culturas importantes, especialmente milho, hortaliças, legumes e frutas.
Economistas avaliam que, caso o fenômeno climático se intensifique e haja problemas hídricos durante o desenvolvimento da segunda safra de milho, o impacto sobre os preços pode ser expressivo. Em cenários mais severos, a inflação de alimentos poderia atingir dois dígitos em 12 meses.
O comportamento do câmbio também é visto como peça-chave nesse cenário. Uma eventual desvalorização do real aumentaria ainda mais os custos de importação de insumos agrícolas e combustíveis.
Produtos mais sensíveis ao avanço do petróleo
Estudos do mercado financeiro mostram que alguns grupos alimentícios possuem repasse mais rápido diante da alta do petróleo e dos fertilizantes. Entre os itens mais vulneráveis estão:
- carnes;
- aves e ovos;
- leite e derivados;
- panificados;
- óleos e gorduras;
- produtos industrializados de origem animal.
Em muitos casos, o reajuste pode chegar ao consumidor em poucas semanas. Isso ocorre porque os custos logísticos, de transporte e de produção aumentam rapidamente em momentos de choque no petróleo.
Outros produtos, como cereais, leguminosas e alimentação fora de casa, possuem impacto gradual, enquanto massas, farinhas e bebidas podem sentir os efeitos apenas meses depois.
Mercado vê risco maior para 2027
Embora parte da pressão inflacionária já possa aparecer no segundo semestre de 2026, alguns economistas acreditam que o cenário mais crítico deve ocorrer em 2027.
Isso porque os efeitos dos fertilizantes mais caros podem atingir em cheio o custo das próximas safras agrícolas. Dependendo do comportamento climático e da duração da guerra, o encarecimento da produção tende a persistir por um período mais longo.
Instituições financeiras estimam que a inflação de alimentos deve continuar elevada mesmo após uma desaceleração parcial do IPCA geral. A avaliação é que o grupo de alimentação continuará pressionando os índices oficiais e reduzindo o poder de compra das famílias.
Além disso, alimentos costumam ter impacto imediato na percepção da população sobre a economia, especialmente entre consumidores de renda mais baixa.
Histórico do El Niño reforça temor do mercado
Dados históricos reforçam a preocupação atual. Levantamentos de economistas indicam que anos marcados por El Niño registraram inflação de alimentos significativamente maior do que períodos sem o fenômeno climático.
Culturas de ciclo curto, como verduras, legumes e frutas, costumam sofrer primeiro os efeitos climáticos. Já produtos ligados às cadeias de grãos e proteína animal tendem a apresentar pressão mais prolongada.
Especialistas afirmam que o momento de formação do El Niño também será determinante. Caso o fenômeno comece ainda no primeiro semestre, parte do impacto pode ser concentrada em 2026. Porém, se o evento climático ganhar força apenas no segundo semestre, os reflexos podem se estender de forma mais intensa para 2027.