Após lucro despencar, BB corta projeções e abandona possibilidade de dividendos extras
Pressão no crédito consignado e piora da inadimplência levaram o banco a revisar metas e abandonar expectativa de proventos extraordinários.
Foto: Fernando Bizerra/Agência Senado/Reprodução.
O Banco do Brasil (BBAS3) confirmou no primeiro trimestre de 2026 um cenário mais desafiador do que o esperado pelo mercado. O banco reportou forte queda no lucro, revisou suas projeções para o ano e praticamente enterrou a possibilidade de pagamento de dividendos extraordinários aos acionistas.
Durante coletiva com jornalistas, o CFO do banco, Giovanne Tobias, afirmou que a instituição descartou, neste momento, qualquer possibilidade de pagamento adicional de dividendos. A hipótese havia sido mencionada no terceiro trimestre de 2025, quando o executivo sinalizou que uma definição sobre o tema ocorreria apenas no fim de 2026. No entanto, a deterioração do ambiente de crédito foi maior do que o previsto inicialmente.
O banco encerrou o último trimestre com lucro líquido recorrente de R$ 3,43 bilhões, resultado que representa retração de 53,5% em relação ao mesmo período de 2025 e queda de 40,2% frente ao trimestre imediatamente anterior.
Apesar da forte deterioração, o número veio praticamente em linha com as estimativas do mercado financeiro, que projetavam lucro próximo de R$ 3,42 bilhões, segundo dados compilados pela Bloomberg.
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Banco descarta dividendos extraordinários
Um dos pontos que mais chamou atenção entre investidores foi o abandono da expectativa de dividendos extraordinários. Durante coletiva com jornalistas, o diretor financeiro do banco, Giovanne Tobias, afirmou que o cenário atual não permite discutir distribuição adicional de proventos.
A possibilidade havia sido mencionada ainda no terceiro trimestre de 2025, mas a piora do ambiente de crédito mudou completamente a perspectiva da instituição. Segundo executivos do banco, o foco agora está concentrado na preservação da rentabilidade e no controle da inadimplência.
Banco do Brasil reduz guidance para 2026
Além do resultado mais fraco, o BB também revisou para baixo suas projeções financeiras para 2026. A estimativa de lucro líquido, que anteriormente variava entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões, foi reduzida para faixa entre R$ 18 bilhões e R$ 22 bilhões.
O movimento reforçou a percepção de que a instituição ainda enfrenta dificuldades para estabilizar seus indicadores operacionais. Ao mesmo tempo, o custo de capital disparou. A projeção saiu de uma faixa entre R$ 53 bilhões e R$ 58 bilhões para um intervalo entre R$ 65 bilhões e R$ 70 bilhões.
Por outro lado, o banco elevou sua expectativa para margem financeira, que passou de crescimento entre 4% e 8% para avanço entre 7% e 11%.
Crédito consignado amplia preocupação do mercado
Analistas destacaram que o problema deixou de ser apenas o lucro trimestral e passou a envolver deterioração estrutural do cenário de crédito. Segundo relatório da XP Investimentos, o Banco do Brasil apresentou mais um trimestre considerado fraco, embora próximo das expectativas da casa.
Os analistas afirmam que a principal pressão atualmente está concentrada nas operações de crédito consignado, especialmente nas carteiras privadas mais recentes. A percepção é de que parte desses contratos começou a apresentar aumento da inadimplência conforme amadurecimento da carteira.
Agronegócio segue pressionando resultados
Outro fator relevante para o desempenho do banco continua sendo o agronegócio. Dados divulgados pela Serasa Experian mostram que o setor agropecuário liderou os processos de recuperação judicial em 2025, concentrando cerca de 30% dos CNPJs envolvidos nesse tipo de processo.
Como o Banco do Brasil possui forte exposição ao crédito rural, o aumento do risco no setor vem pressionando os resultados da instituição nos últimos trimestres. Segundo analistas, a deterioração do cenário de crédito deixou de ficar restrita apenas ao agronegócio e passou a atingir outras linhas relevantes da carteira.
Mercado já esperava trimestre difícil
Antes mesmo da divulgação dos números, analistas já avaliavam que o Banco do Brasil corria risco de não conseguir cumprir suas metas para 2026. Com o corte do guidance confirmado pela administração, o mercado passou a enxergar um cenário ainda mais conservador para os próximos trimestres.
Agora, investidores acompanham de perto os próximos passos do banco para tentar conter o avanço da inadimplência e recuperar parte da rentabilidade perdida nos últimos resultados.
Resumo 1T26 BBAS3
Principais indicadores financeiros do último trimestre do Banco do Brasil:
- BBAS3 teve lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no 1T26, queda de 53% na comparação anual.
- O ROE caiu para 7,3%, mas ficou acima da expectativa do mercado (6,2%).
- A inadimplência acima de 90 dias subiu para 5,05%, puxada principalmente pela carteira do agronegócio.
- O custo do crédito disparou 85% em um ano, chegando a R$ 18,5 bilhões.
- O banco elevou sua projeção de custo de crédito para 2026 de até R$ 58 bilhões para até R$ 70 bilhões.
- A margem financeira bruta cresceu 14,8%, totalizando R$ 27,4 bilhões. Já a margem financeira líquida caiu 37,6%, para R$ 8,5 bilhões.
- As receitas com serviços ficaram em R$ 8,8 bilhões, alta anual de 5,5%.
- As despesas administrativas somaram R$ 10 bilhões, avanço de 5,5% em 12 meses.
- A carteira de crédito cresceu 2,2%, alcançando R$ 1,3 trilhão.
- O crédito para pessoa física avançou 7,8%, impulsionado pelo consignado privado.