Produção industrial cresce 1,8%; dado reforça cautela sobre corte da Selic

Produção industrial do Brasil cresce 1,8% em janeiro, acima do esperado. Analistas avaliam impacto do dado na decisão do Banco Central sobre a Selic.

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Última atualização:  06 de mar, 2026 às 13:58
Michael Melo/Metrópoles

A produção industrial brasileira iniciou 2026 com resultado acima das expectativas. O setor avançou 1,8% em janeiro, a maior alta mensal desde junho de 2024 (4,4%), segundo dados divulgados nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado superou a projeção do mercado, que apontava crescimento de 0,7%, e interrompeu a sequência de quedas observada no fim de 2025. Entre setembro e dezembro do ano passado, a indústria havia acumulado recuo de 2,5%.

Na comparação com janeiro de 2025, porém, o setor registrou leve queda de 0,2%. Já no acumulado em 12 meses, o avanço ficou em 0,5%.

Segundo o gerente da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), André Macedo, parte da recuperação reflete a retomada das atividades após um dezembro mais fraco.

“Naquele mês houve menor dinamismo da indústria e maior frequência de férias coletivas. Com o início do ano, parte dessa perda foi recuperada”, explicou.

Apesar da melhora, Macedo ressalta que os efeitos da política monetária restritiva ainda limitam a recuperação do setor.

Químicos e veículos puxam a alta da produção industrial

O crescimento de janeiro mostrou disseminação entre os setores industriais. Das 25 atividades pesquisadas, 19 registraram alta, movimento que não ocorria desde junho de 2024.

Entre os principais destaques:

  • Produtos químicos: +6,2%
  • Veículos automotores, reboques e carrocerias: +6,3%
  • Coque, derivados de petróleo e biocombustíveis: +2,0%

No caso dos produtos químicos, o avanço veio principalmente de insumos ligados ao agronegócio, como fertilizantes, herbicidas e fungicidas.

Indústria forte pressiona debate sobre juros

Para Sara Paixão, analista de macroeconomia da InvestSmart XP, o resultado acima do esperado adiciona cautela ao cenário de política monetária.

Segundo a especialista, o desempenho da indústria surge em um momento em que o mercado tenta calibrar as apostas para a próxima decisão do Banco Central do Brasil sobre a taxa Selic.

“O crescimento surpreendente da indústria, em contraste com a desaceleração observada nos últimos meses, traz mais uma variável de cautela para o Banco Central”, afirma.

Ela lembra que, desde a última reunião da autoridade monetária, o cenário econômico apresentou sinais mistos. O período registrou IPCA-15 mais fraco, dados do Caged pressionados e alta do preço do petróleo influenciada pela guerra no Oriente Médio.

Diante desse quadro, parte dos analistas passou a rever as expectativas para o ritmo de queda dos juros.

“Alguns economistas começaram a ajustar a aposta de corte na Selic de 0,5 ponto percentual para 0,25 ponto percentual”, diz Sara.

Recuperação ainda parcial

Mesmo com a alta de janeiro, a indústria ainda não recuperou totalmente as perdas do fim de 2025. O saldo entre setembro e dezembro permanece negativo em 0,8%, o que indica que o setor ainda enfrenta os efeitos do crédito caro e da desaceleração da atividade.

Para os próximos meses, o desempenho da indústria deve continuar no radar do mercado, especialmente por seu impacto nas expectativas para inflação e juros.

Pedro Gomes

Jornalista formado pela UniCarioca, com experiência em esportes, mercado imobiliário e edtechs. Desde 2023, integra a equipe do Melhor Investimento.