Novo uso do FGTS e custos elevados derrubam construtoras na B3
As ações de construtoras voltadas à baixa renda caíram com força na B3 após a proposta de novo uso do FGTS para quitação de dívidas, o que pode reduzir o financiamento imobiliário.
Foto: depositphotos.com / joasouza
O novo uso do FGTS e o aumento dos custos de construção estão no centro da forte queda das ações de construtoras na Ibovespa. O movimento, observado na sessão de segunda-feira (27), reflete a combinação de incertezas sobre financiamento imobiliário, pressão inflacionária e deterioração do sentimento dos investidores.
Leia também:
A principal razão para a queda recente foi a notícia de que o governo estuda permitir o uso do FGTS para quitação de dívidas. A medida, apesar de potencialmente positiva para o consumo, preocupa o mercado imobiliário.
Isso acontece porque o FGTS é uma das principais fontes de funding para o crédito habitacional no Brasil. Com a possibilidade de retirada de recursos para outros fins, investidores passaram a precificar:
- Redução na oferta de financiamento imobiliário
- Menor ritmo de lançamentos
- Pressão nas vendas futuras
Na prática, o novo uso do FGTS altera a dinâmica estrutural do setor, gerando incerteza sobre o crescimento das incorporadoras nos próximos trimestres.
Custos de construção aceleram e ampliam riscos
Outro fator relevante é a retomada da inflação da construção, medida pelo INCC-M.
Os dados mais recentes mostram aceleração:
- Março: +0,36%
- Abril: +1,04%
Estudos preliminares apontam que o índice pode sofrer impacto adicional de até 4 pontos percentuais em 2026, o dobro do que muitas empresas ainda consideram em seus orçamentos.
Esse cenário eleva o risco de:
- Compressão de margens
- Revisões de custos
- Ajustes nos preços de novos projetos
Mais do que o nível de custos, o mercado reage à dificuldade de prever sua trajetória — um fator que aumenta a aversão ao risco.
Queda das ações na B3 reflete piora do sentimento
Com esse pano de fundo, as ações de construtoras voltadas à baixa renda registraram forte queda:
- Recuo entre 5% e 9% em um único pregão
- Perdas acumuladas de 30% a 40% desde as máximas recentes
O destaque negativo ficou para a Cury, que caiu 7,76% no dia.
O movimento mostra que o mercado já está ajustando expectativas para um cenário mais desafiador, com menor visibilidade sobre resultados futuros.
Impactos desiguais entre empresas do setor
De acordo com análise do Bradesco BBI, os efeitos não são homogêneos entre as companhias.
Empresas mais expostas
- Cury
- Plano & Plano
Essas empresas possuem maior volume de receitas ainda não reconhecidas, o que as torna mais sensíveis a revisões de custos.
Empresas melhor posicionadas
- Direcional
- Tenda
Essas companhias apresentam maior capacidade de absorver pressões inflacionárias, seja por estratégia operacional ou perfil de projetos.
Fatores adicionais: energia, petróleo e incerteza global
Além do novo uso do FGTS e da inflação da construção, o setor também enfrenta pressões vindas de:
- Alta dos preços de energia
- Elevação do petróleo
- Incertezas macroeconômicas
Esses elementos impactam diretamente os custos de insumos, como aço e cimento, reforçando o cenário de cautela.
Amortecedores evitam cenário mais crítico
Apesar do ambiente adverso, há fatores que ajudam a limitar uma deterioração mais intensa:
- Câmbio mais favorável
- Teto mais alto do Minha Casa Minha Vida
- Orçamentos mais conservadores no pós-pandemia
- Possibilidade de repasse de preços em novos lançamentos
Esses pontos diferenciam o momento atual do choque observado após a pandemia, quando o setor sofreu de forma mais abrupta.
Valuation descontado e perspectiva para os próximos meses
As ações das construtoras negociam atualmente a múltiplos entre 5x e 7x lucro (P/L), o que sugere preços já pressionados.
Segundo o Bradesco BBI:
- No curto prazo, a tendência ainda é negativa
- O fluxo de notícias segue pressionando o setor
- A recuperação depende de maior clareza sobre custos
Por outro lado, caso não haja um choque prolongado de inflação, o movimento recente pode ter sido exagerado.