B3 muda Ibovespa com BDRs e cobrança pelo índice
B3 muda Ibovespa com possível inclusão de BDRs como Nubank e XP. Veja o que muda para fundos indexados e pequenos investidores.
Imagem: iStock/Galeanu Mihai/Reprodução - Montagem: Giovanna Figueredo
A B3 muda Ibovespa pela primeira vez desde 2014. A bolsa de valores brasileira estuda uma reformulação ampla da metodologia do principal índice de ações do país, com duas mudanças centrais em debate: a inclusão de BDRs (Brazilian Depositary Receipts) na carteira teórica e a cobrança pelo uso do índice por gestores de fundos. O Brazil Journal antecipou as informações. A VEJA confirmou com nota oficial da B3.
B3 muda Ibovespa: quais são as mudanças estudadas?
Segundo Luiz Masagão, VP de produtos e clientes da B3, a bolsa vem realizando estudos com índices globais. Assim, o objetivo é desenvolver uma metodologia mais moderna. A B3 ainda discute as propostas com participantes do mercado. Além disso, precisarão passar por consulta pública antes de qualquer implementação.
A própria B3 confirmou as discussões por meio de nota oficial enviada à VEJA: “A B3 informa que avalia continuamente a evolução das metodologias e dos modelos de uso de seus índices, em linha com as melhores práticas internacionais e com o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro.”
O Ibovespa passou por sua última grande reformulação em 2014. Naquele momento, a B3 adotou a ponderação por free float e excluiu as penny stocks. Desde então, a metodologia sofreu apenas ajustes pontuais.
BDRs no Ibovespa: quais empresas poderiam entrar?
A proposta de maior impacto é a inclusão de BDRs na carteira teórica do Ibovespa. Os BDRs são certificados de ações de empresas estrangeiras negociados na bolsa brasileira. Eles espelham o comportamento dos papéis originais negociados em Wall Street, permitindo que investidores brasileiros acessem essas companhias sem precisar operar no exterior.
Por exemplo, entre as empresas que poderiam entrar no índice via BDR estão o Nubank (BDR: ROXO34), a XP Inc. (holding que controla a XP Investimentos) e o Mercado Libre (BDR: MELI34) — companhias com forte presença e relevância no mercado brasileiro, mas com ações listadas primariamente em Nova York.
No entanto, a proposta enfrenta um obstáculo: os fundos de pensão têm restrições para investir em BDRs. Por isso, a B3 já conversa com os órgãos reguladores. Fundos de pensão são grandes investidores institucionais. Dessa forma, qualquer restrição a eles impactaria diretamente os fluxos de compra dos ativos incluídos no índice.
Por que o Ibovespa precisa ser reformulado agora?
A pressão por mudanças vem de críticas recorrentes ao Ibovespa atual. O índice privilegia liquidez e free float. Assim, resulta em forte concentração em bancos e commodities. No entanto, juntos, esses setores representam cerca de metade da carteira do índice.
Essa concentração faz com que o Ibovespa deixe de refletir setores dinâmicos e empresas de crescimento relevantes para a economia brasileira. A ausência de gigantes como Nubank e XP no índice é apontada como lacuna, especialmente quando elas figuram entre as maiores empresas por capitalização de mercado com operações no Brasil.
Portanto, índices como o MSCI e o S&P Global já cobram pelo licenciamento de sua metodologia. A B3 avalia adotar essa prática para diversificar suas receitas.
B3 muda Ibovespa e estuda cobrar pelo uso do índice
A segunda mudança em estudo é a cobrança pelo uso do Ibovespa por gestores de fundos. Hoje, a B3 cobra pelo índice apenas em ETFs, como o BOVA11. A ideia é estender essa cobrança a fundos de investimento ativos e passivos que utilizam o Ibovespa como referência de desempenho (benchmark).
Vale destacar que essa prática já é padrão global. A MSCI Inc. e a S&P Global cobram taxas de licenciamento de gestores. Dessa forma, obtêm receita recorrente e previsível, menos dependente do volume negociado.
Portanto, para a B3, a mudança criaria uma nova linha de receita estrutural. Atualmente, as receitas dependem dos volumes de negociação, que variam conforme o mercado. Em contrapartida, um modelo de licenciamento estável reduziria essa volatilidade.
O que muda para o investidor após a reforma do índice?
Em suma, para o investidor de varejo, as mudanças trariam impactos práticos e oportunidades a considerar:
ETFs de Ibovespa precisariam se ajustar: Fundos como o BOVA11, que replica o Ibovespa, teriam que comprar as ações ou BDRs das novas empresas incluídas no índice. Isso criaria demanda estrutural por esses ativos, potencialmente valorizando-os no momento da inclusão — um padrão conhecido como “efeito índice”.
Maior diversificação para o investidor passivo: Com BDRs de Nubank, XP e Mercado Libre no Ibovespa, quem investe em ETFs ou fundos indexados passaria a ter exposição automática a essas empresas de tecnologia e serviços financeiros — sem precisar comprá-las individualmente.
Fundos de pensão podem ficar de fora: Se os impasses regulatórios não forem resolvidos, os fundos de pensão — grandes compradores institucionais — não poderão acompanhar o índice reformado. Isso limitaria a entrada de capital nesses ativos.
O processo ainda é longo: Antes de qualquer mudança, a B3 precisará abrir consulta pública, coletar feedback dos participantes do mercado e obter aprovação regulatória. Contudo, o cronograma ainda é indefinido. O sinal de que a mudança está em discussão já é relevante para quem acompanha o mercado de capitais brasileiro.
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