Mercado de bebidas alcoólicas: como as gigantes estão reagindo à queda no consumo?
Com a Geração Z bebendo menos e o consumo fora do lar caindo, gigantes do setor apostam em produtos premium, funcionais e zero álcool.
Imagem: Envato Elements
O copo do consumidor está mudando de conteúdo — e as gigantes do setor já sentiram esse impacto no bolso. Com o consumo de álcool fora do lar registrando quedas de até 34% no início de 2025, os mega grupos como Ambev e Heineken enfrentam um novo paradigma: um mercado em que “menos é mais”.
Impulsionadas por uma Geração Z que prioriza bem-estar e autocontrole, essas companhias começam a reduzir a dependência histórica do volume de álcool e passam a investir em portfólios premium, bebidas funcionais e no mercado de zero álcool.
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Evolução do mercado de bebidas alcoólicas ao longo dos anos
O mercado de bebidas alcoólicas passou por transformações profundas na última década. Se antes o sucesso era medido pelo volume de vendas, hoje a lógica se volta para o valor agregado — vender menos, porém com maior qualidade e preço.
Algumas dinâmicas marcaram essa trajetória:
| Período | Foco Principal | Dinâmica do Mercado |
|---|---|---|
| Anos 90 – 2010 | Expansão e Escala | Consolidação das gigantes, com fusões e ganho de eficiência fabril e logística. |
| 2010 – 2020 | Cervejas artesanais e mixologia | Crescimento do movimento craft e busca por sabores diferenciados. |
| 2020 – 2023 | Digitalização e Home Station | Avanço do e-commerce de bebidas e consumo doméstico, com crescimento dos RTDs. |
| 2024 – 2026 | Moderação e funcionalidade | Consolidação da tendência “Sober Curious”, com o álcool deixando de ser o centro do convívio social para as novas gerações. |
Consumo entre brasileiros registra queda na última década
O Brasil assiste a uma redução gradual, mas perceptível, no consumo de bebidas alcoólicas. É o que indicam dados do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD III).
Segundo o estudo, embora 61,2% da população adulta já tenha feito uso de álcool em algum momento da vida, a parcela que manteve o hábito no último ano é de 42,5%.O índice aponta uma retração consistente quando comparado aos dados de 2012, quando a prevalência de bebedores adultos era de 47,7%.
A tendência de queda é corroborada por uma pesquisa Datafolha realizada em abril de 2025. Conforme o instituto, entre os brasileiros que dizem consumir álcool, 53% afirmaram ter reduzido a ingestão no último ano.
O cuidado com o bem-estar parece ser o principal motor dessa transformação. Entre os abstêmios, 34% apontam a saúde como o fator determinante para a decisão.
O levantamento do Datafolha ouviu 1.912 pessoas em 113 municípios, apresentando uma margem de erro de dois pontos percentuais.
A Geração Z e a ruptura no padrão de consumo

A relação dos jovens brasileiros com o álcool atravessa uma transformação estrutural que parece estar no epicentro dessa redução no consumo. De acordo com o Relatório Covitel 2023, houve uma queda expressiva na frequência de consumo entre jovens de 18 a 24 anos que costumavam beber três ou mais vezes por semana.
- O estudo Copo Meio Cheio, da consultoria Go Magenta, aprofunda os motivos dessa redução. A pesquisa indica que a preocupação central é evitar a exposição negativa e o desgaste psicológico.
- Cerca de 30% dos jovens da Geração Z dizem beber menos para manter o autocontrole e evitar a chamada “ressaca moral”. Entre os millennials, a preocupação tende a se concentrar mais nos efeitos da ressaca física.
Tal comportamento reflete o menor índice de bebedores jovens em seis décadas. Um levantamento da MindMiner mostra que apenas 45% dos jovens com menos de 25 anos consomem bebidas alcoólicas — o menor índice desde 1962. Questões ligadas à saúde mental, autocontrole e bem-estar aparecem como fatores centrais.
Análises da Fortune Business Insights associam esse comportamento ao aumento da procura por bebidas alcoólicas premium. O mercado de bebidas tem se adaptado com opções de mais qualidade e versões aromatizadas, atendendo a um público que busca experiências sensoriais sofisticadas em vez de grandes volumes. No novo cenário, o “beber menos” tornou-se sinônimo de “beber melhor”.
Consumo de cerveja sem álcool cresce mais de 500%
O mercado brasileiro de bebidas vive uma transição histórica. Segundo o Anuário da Cerveja 2025, a produção de cerveja sem álcool no país registrou uma explosão de 536% entre 2023 e 2024, saltando de 118,9 milhões para impressionantes 757,4 million de litros.
Com esse desempenho, o Brasil ultrapassou potências tradicionais e assumiu a vice-liderança mundial no segmento, ficando atrás apenas da Alemanha — uma ascensão meteórica para quem ocupava a 7ª posição em 2018.
A projeção da Euromonitor aponta que o fôlego do setor não deve diminuir: a expectativa é que o consumo atinja 885 milhões de litros em 2026. O segmento ganhou tanta relevância que o Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja (Sindicerv) lançou o site Cerveja Zero, dedicado a dados, explicações técnicas e informações sobre o consumo consciente.
Parte desse avanço está ligada justamente às mudanças de prioridade da Geração Z, que busca a experiência social da cerveja sem os efeitos do álcool.
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Como as gigantes globais estão reagindo
Diante desse cenário, grandes grupos do setor vêm reformulando portfólios, estratégias de comunicação e a forma de se relacionar com o consumidor.
Ambev: moderação como novo padrão de consumo
A busca por produtos com menor ou nenhum teor alcoólico tornou-se parte central das estratégias das grandes companhias. Dentro dessa lógica, bebidas com teor alcoólico médio entre 4% e 5% também passam a ser apresentadas como opções que permitem consumo mais prolongado.
Na Ambev, a leitura do cenário atual não aponta para uma era de abstinência, mas para a consolidação da moderação como comportamento social. A companhia tem investido massivamente na ampliação de opções de baixo teor alcoólico e versões zero.
Segundo Anna Paula Alves, diretora da categoria cervejeira da Ambev, essa transição já impacta positivamente os resultados financeiros. Para a executiva, o sucesso do segmento é fruto de investimentos robustos em tecnologia e inovação fabril, permitindo que a produção acompanhe as exigências de paladar do novo público.
O movimento indica que, mais do que vender volume, o setor passa a disputar relevância em um contexto em que escolha, equilíbrio e moderação ganham protagonismo nas decisões do consumidor.
Grupo Heineken: além da cerveja e o foco na funcionalidade
No Grupo Heineken, a mudança geracional foi o catalisador para uma revisão estratégica global. O carro-chefe dessa nova fase é a Heineken 0.0%, produto desenvolvido especificamente a partir da observação dos novos hábitos de consumo, conforme explica Elbert Beekman, gerente de marketing da marca no Brasil.
Contudo, a ofensiva da empresa ultrapassa o universo cervejeiro:
- Portfólio Não Alcoólico: Fortalecimento de marcas como FYS e Itubaína.
- Bebidas Funcionais: Através da parceria com a Better Drinks, a companhia avançou sobre nichos de bem-estar com produtos como Mamba Water, Baer-Mate e Baer-matcha.
- Proposta de Valor: O foco agora são ingredientes de origem vegetal, cafeína natural e bebidas que prometem energia e concentração.
Segundo Beekman, a proposta se conecta a valores como liberdade de escolha, moderação e equilíbrio, ampliando ocasiões de consumo e aproximando a marca de novos públicos e estilos de vida.
. Ao oferecer alternativas que vão do lazer à performance, as marcas conseguem se aproximar de públicos que antes não se sentiam contemplados pelo setor, transformando o “beber menos” em uma oportunidade de expansão de mercado.
Pressões no setor e mudanças de liderança
O cenário de transformação ocorre em meio a vendas mais fracas, margens pressionadas e insatisfação de investidores em parte da indústria global de bebidas.
O CEO da Heineken, Dolf van den Brink, deixou o cargo em um momento delicado para o setor. A mudança não é isolada: outras empresas globais de bens de consumo também vêm promovendo trocas em suas lideranças após anos desafiadores.
O alto custo de vida, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, reduziu o orçamento dos consumidores para itens considerados não essenciais, como bebidas alcoólicas.
Além disso, o setor enfrenta condições climáticas desfavoráveis, incertezas políticas e econômicas e mudanças no comportamento do consumidor.
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