Fraude Americanas AMER3: PF deflagra 2ª fase da Operação Disclosure, bloqueia R$ 54 bi e mira Sicupira
Foto: Agência Senado / CC BY 2.0 (Wikimedia Commons). Beto Sicupira durante cerimônia no Plenário do Senado Federal.
Fraude Americanas AMER3 — Por Redação Melhor Investimento | 25 de junho de 2026
A fraude Americanas AMER3 chegou a um novo patamar nesta quinta-feira (25 de junho). De fato, a Polícia Federal deflagrou a 2ª fase da Operação Disclosure. Assim, a PF cumpriu nove mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Rio de Janeiro. Simultaneamente, a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o bloqueio de até R$ 54 bilhões em ativos dos investigados. Ou seja, o valor equivale ao rombo total apurado desde 2023. Entre os alvos estão dois dos homens mais ricos do Brasil e executivos dos maiores bancos do país.
O que é a Operação Disclosure e o que mudou na segunda fase
Lançada em novembro de 2025, a Operação Disclosure foi a resposta da Polícia Federal ao maior escândalo contábil da história corporativa brasileira. Em janeiro de 2023, a Americanas revelou um rombo de R$ 25,2 bilhões em seus balanços. Com isso, a divulgação derrubou uma das empresas de varejo mais antigas do país e forçou a saída imediata de toda a diretoria. Ademais, as investigações posteriores elevaram a fraude total para R$ 40,1 bilhões. Somam-se, portanto, operações de risco sacado (R$ 18,4 bilhões) e de Verba de Propaganda Cooperada — a chamada VPC (R$ 21,7 bilhões).
Na primeira fase, os esforços concentraram-se em ex-executivos operacionais e em operadores diretos do esquema. Todavia, a segunda fase representa uma escalada significativa. O inquérito agora avança sobre os acionistas controladores históricos e os executivos dos maiores bancos credores do país. De fato, é a primeira vez que o núcleo duro da estrutura societária da varejista enfrenta mandados de busca e apreensão.
Fraude Americanas AMER3: quem são os alvos da PF na Operação Disclosure
Os principais alvos desta fase são Carlos Alberto Sicupira (Beto Sicupira) e Paulo Alberto Lemann, filho de Jorge Paulo Lemann. Além deles, Eduardo Saggioro Garcia também figura nas investigações como operador central do esquema. A operação atinge ainda executivos dos bancos Itaú, Bradesco e Santander, além de ex-integrantes do conselho de administração da varejista.
É fundamental destacar que Jorge Paulo Lemann não figura como alvo direto desta fase. No entanto, Paulo Alberto Lemann, que integrava o conselho de administração da Americanas, está no centro das apurações. Além disso, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) anunciou dois novos inquéritos administrativos. O primeiro apura a conduta dos bancos credores; o segundo investiga quem exerceu liderança no esquema dentro da companhia.
Por outro lado, investidores institucionais movem uma arbitragem de R$ 12,8 bilhões contra Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. Entretanto, o sucesso dessa demanda dependeria de provar que os três tinham ciência do esquema. Segundo especialistas, eles deveriam tê-lo detectado como membros do conselho de administração.
Como o esquema funcionava: VPC e risco sacado escondiam R$ 40 bilhões
O mecanismo da fraude operava em duas frentes complementares. Pelo risco sacado, a Americanas obtinha financiamento bancário para pagar fornecedores. Contudo, a empresa omitia essa dívida dos balanços publicados, criando artificialmente uma posição de caixa muito melhor do que a real. Já nos contratos de VPC, a empresa registrava acordos fictícios de propaganda com fornecedores sem nenhuma prestação de serviço efetiva, inflando o resultado operacional.
Ao todo, os contratos de VPC somaram R$ 21,7 bilhões. As operações de risco sacado, por sua vez, chegaram a R$ 18,4 bilhões — um rombo consolidado de R$ 40,1 bilhões. Consequentemente, a Americanas protocolou pedido de recuperação judicial em 19 de janeiro de 2023, apenas três dias depois de revelar a fraude ao mercado. O impacto foi imediato: as ações AMER3 despencaram mais de 98% no pregão seguinte ao anúncio.
Fraude Americanas AMER3 e o impacto para credores e investidores
Para quem ainda mantém papéis AMER3 na carteira, o cenário permanece adverso. As ações perderam mais de 98% do valor desde o colapso de 2023 e são negociadas em centavos na B3. Os credores aprovaram o plano de recuperação judicial em 2024, mas as perspectivas de recuperação integral dos créditos seguem baixas. Qualquer valorização expressiva dos papéis dependeria de uma reversão jurídica significativa nas ações propostas contra os controladores.
O bloqueio de R$ 54 bilhões representa, portanto, um marco histórico: pela primeira vez, os controladores enfrentam restrições patrimoniais equivalentes ao valor total da fraude. Segundo fontes ouvidas pelo Seu Dinheiro, a efetividade do bloqueio dependerá das estruturas offshore dos investigados. A atuação da Interpol no rastreamento de bens no exterior também será decisiva.
Dessa forma, o caso reforça uma lição permanente para o investidor individual. Indicadores de endividamento real e fluxo de caixa livre são mais confiáveis do que o lucro contábil reportado. Por isso, ao avaliar qualquer empresa, o investidor deve examinar a saúde real do balanço com rigor antes de qualquer decisão. Isso vale especialmente ao analisar programas de recompra de ações — como o recentemente aprovado pela Klabin (KLBN11).
O que vem por aí: próximos passos da investigação e do mercado
Nos próximos meses, as apurações devem avançar em dois eixos. Em termos criminais, a PF analisará os documentos apreendidos nos nove mandados desta fase. O foco recairá sobre e-mails internos e planilhas de controle do esquema. Pela via regulatória, a CVM conduzirá os dois inquéritos administrativos abertos sobre os bancos e os administradores da varejista.
Paralelamente, a arbitragem de R$ 12,8 bilhões movida por investidores deve avançar junto ao processo criminal. Para o mercado de capitais como um todo, a fraude Americanas AMER3 já alterou permanentemente o debate sobre governança corporativa no Brasil. Dessa maneira, espera-se que empresas listadas adotem práticas mais transparentes de reporte financeiro. Investidores que acompanham o cenário macroeconômico podem relacionar esse debate à projeção do Banco Central de inflação a 5,2% em 2026. Portanto, essa estimativa eleva o custo financeiro das recuperações judiciais e exige rigor redobrado na seleção de ativos.