Raízen negocia aporte de até R$ 10 bi e conversão de 35% da dívida com Cosan, Shell e fundos do BTG
Empresa discute entrada do BTG e reorganização para reduzir alavancagem
Foto: Divulgação/Raízen
A Raízen negocia com seus controladores, Cosan e Shell, e com fundos do BTG Pactual um pacote que prevê aporte bilionário, conversão de parte da dívida em ações e reorganização societária. As conversas ocorrem neste início de ano e envolvem credores e detentores de títulos da companhia.
Inicialmente, em 12 de fevereiro, a Cosan e o BTG Pactual apresentaram à Shell uma proposta que previa a conversão de 25% da dívida e a cisão da Raízen em duas empresas: uma focada em açúcar e etanol, e outra em distribuição de combustíveis. Em resposta, a Shell apresentou uma contraproposta com um aporte maior e uma solução mais simplificada, que não envolvia a cisão da companhia.
O objetivo é reforçar o caixa, reduzir a alavancagem e estabilizar a estrutura financeira após pressão de juros elevados, safras mais fracas e investimentos que ainda não geraram retorno esperado.
Segundo informações de mercado, o plano combina aumento de capital, entrada de um novo sócio na área de distribuição de combustíveis e troca de dívida por participação acionária.
Entrada do BTG na distribuição
Uma das frentes da negociação envolve fundos de private equity do BTG Pactual, que avaliam investir cerca de R$ 5,5 bilhões no braço de distribuição de combustíveis da companhia.
A área é considerada estratégica por ter geração de caixa mais previsível em comparação ao segmento de açúcar e etanol.
A entrada de um investidor nessa divisão faz parte da tentativa de fortalecer o fluxo financeiro do grupo.
Ao atrair capital para a operação de distribuição, a empresa busca melhorar sua liquidez e criar uma base mais sólida para enfrentar o atual cenário de crédito mais restritivo.
Para Rafael Bellas, coordenador de produtos da InvestSmart:
“Este processo tem sido dinâmico, com a proposta atual representando uma evolução de discussões anteriores. É crucial destacar que os termos finais dessas propostas ainda não estão definidos, dependendo de aprovações de credores e outras partes interessadas”, afirma.
Conversão de dívida em ações
Outro ponto central do plano é a conversão de aproximadamente 35% da dívida em capital. Na prática, parte do que a empresa deve aos credores deixaria de ser dívida e passaria a ser participação acionária.
Esse mecanismo, conhecido como troca de dívida por ações, reduz o volume total do passivo e melhora indicadores como alavancagem e relação entre dívida e geração de caixa. Por outro lado, pode provocar diluição dos atuais acionistas, já que novos papéis seriam emitidos.
Sobre a conversão de dívida, Bellas detalha:
“Esta operação visa reduzir o passivo, melhorar indicadores de alavancagem e diminuir custos financeiros, embora os termos exatos e a potencial diluição acionária ainda estejam sob negociação”, explica.
Por exemplo, para um credor com R$ 100.000,00 em dívida, R$ 35.000,00 seriam convertidos em ações, enquanto R$ 65.000,00 permaneceriam como dívida. Os termos finais, no entanto, ainda estão em discussão e dependem da adesão dos credores.
Aumento de capital pelos controladores
Além da possível entrada do BTG, os atuais acionistas estudam um aumento de capital estimado entre R$ 3 bilhões e R$ 5 bilhões. A divisão dos aportes ainda está sendo negociada entre os controladores.
De acordo com as discussões em curso, a Shell poderia contribuir com R$ 1,5 bilhão a R$ 3,5 bilhões, a Cosan com R$ 1 bilhão, e Rubens Ometto com R$ 500 milhões, este último buscando financiamento.
A Shell pode contribuir com uma parcela relevante desse montante, enquanto a Cosan também avalia participação no reforço de caixa. Há ainda a previsão de investimento adicional por parte de Rubens Ometto, ligado ao grupo Cosan.
Esse reforço é considerado essencial para dar sustentação ao plano mais amplo de reestruturação e demonstrar compromisso dos controladores com a recuperação financeira da companhia.
Reorganização interna dos negócios
O plano também inclui a separação operacional entre o braço de energia, voltado à produção de açúcar e etanol, e a área de distribuição de combustíveis. A ideia é organizar melhor ativos, passivos e fluxos de caixa, tornando mais clara a situação financeira de cada divisão.
Essa reorganização não significa, necessariamente, a criação de duas empresas listadas separadamente, mas sim uma divisão interna que facilite a gestão e a análise por parte de investidores e credores.
Para o mercado, maior transparência pode ajudar a reduzir incertezas e melhorar a percepção de risco.
Contexto financeiro desafiador
A necessidade de reestruturação ocorre após um período de maior pressão sobre a companhia. Juros elevados aumentaram o custo da dívida, enquanto safras abaixo do esperado impactaram receitas no segmento de açúcar e etanol.
Ao mesmo tempo, investimentos realizados nos últimos anos ainda não entregaram retorno suficiente para compensar o aumento do endividamento.
Esse conjunto de fatores levou a rebaixamentos de classificação de risco e à queda nos preços de títulos da empresa no mercado secundário.
Bellas também afirmou:
“Discute-se uma reorganização societária interna, possivelmente separando as unidades de negócio Raízen Energia e Raízen Distribuição para otimizar gestão e valor, sem a cisão completa em duas empresas listadas. A conclusão dessas negociações e a implementação das medidas propostas serão determinantes para a solidez financeira e o crescimento futuro da Raízen”, afirma.
O que está em jogo
Caso o plano seja aprovado pelos credores e implementado nos termos discutidos, a empresa pode ganhar tempo e estabilidade para atravessar o atual ciclo econômico. A combinação de aporte, conversão de dívida e reorganização tende a melhorar indicadores financeiros e reduzir a pressão de curto prazo.
Por outro lado, se as negociações não avançarem, a companhia pode enfrentar maior volatilidade em seus ativos e necessidade de medidas mais duras para reequilibrar o passivo.
Para investidores, o momento é de acompanhamento atento. A definição do formato final do acordo, o nível de diluição e as condições negociadas com credores serão determinantes para avaliar os impactos no valor da empresa e em seus papéis no mercado.
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