Eurasia vê reeleição de Lula como obstáculo para reduzir tarifas dos EUA
A consultoria Eurasia avalia que uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode dificultar um acordo para reduzir as tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros.
Foto: Ricardo Stuckert / PR
A avaliação da consultoria Eurasia de que uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode dificultar um acordo para reduzir as tarifas dos EUA sobre produtos brasileiros adiciona um novo elemento ao debate sobre as eleições de 2026 e seus impactos na política comercial do país. O estudo aponta que, embora o governo brasileiro tenha iniciado os procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade Comercial em resposta às medidas adotadas por Washington, uma retaliação antes do pleito é considerada improvável devido às exigências legais e ao cenário político.
Reeleição de Lula pode dificultar acordo para reduzir tarifas dos EUA
A análise da Eurasia parte do novo pacote de medidas comerciais anunciado pelos Estados Unidos. Além da tarifa de 25% aplicada às exportações brasileiras, uma nova cobrança de 12,5%, baseada na Seção 301 da legislação norte-americana e relacionada ao combate ao trabalho forçado, está prevista para entrar em vigor em 22 de julho.
Segundo a consultoria, a continuidade de Lula no Palácio do Planalto pode tornar mais complexa uma negociação para reduzir ou eliminar essas tarifas dos EUA. A avaliação considera que Washington já concedeu diversas exceções comerciais anteriormente e que existe pouca disposição do governo brasileiro para apresentar concessões relevantes capazes de facilitar um entendimento entre os dois países.
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Ainda assim, a Eurasia ressalta que, apesar das dificuldades previstas para um acordo imediato, o relacionamento bilateral poderá encontrar espaço para uma retomada do diálogo após as eleições de 2026, especialmente ao longo de 2027, quando fatores políticos podem incentivar novas negociações.
Novas tarifas ampliam pressão sobre o comércio brasileiro
O novo pacote tarifário representa mais um capítulo nas tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos. As medidas afetam exportações brasileiras e aumentam a preocupação de setores da indústria e do agronegócio que dependem do mercado norte-americano.
As tarifas dos EUA foram implementadas após recomendações do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), enquanto a nova cobrança de 12,5% está relacionada às políticas norte-americanas de combate ao trabalho forçado em cadeias produtivas internacionais.
Embora o governo brasileiro tenha reagido anunciando a abertura dos procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade Comercial, o processo exige análises técnicas, consultas entre diferentes órgãos federais e audiências públicas, etapas que tornam improvável qualquer medida retaliatória antes das eleições presidenciais.
Na prática, isso significa que o Brasil deve concentrar seus esforços em canais diplomáticos enquanto avalia possíveis respostas dentro das regras do comércio internacional.
Vitória de Flávio Bolsonaro poderia favorecer negociações
O estudo da Eurasia também apresenta um cenário alternativo para as eleições de 2026. Caso o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) seja eleito presidente, a consultoria acredita que haveria maior alinhamento político entre Brasília e Washington, criando condições mais favoráveis para um acordo envolvendo as tarifas dos EUA.
Entretanto, esse ambiente de maior aproximação poderia exigir concessões brasileiras. Entre os pontos citados pela consultoria estão negociações envolvendo minerais críticos estratégicos e uma possível eliminação das tarifas incidentes sobre o etanol, temas considerados de interesse para os Estados Unidos.
Na avaliação dos analistas, um governo alinhado politicamente com Washington teria mais facilidade para construir um entendimento comercial, mas também enfrentaria maior pressão para atender demandas norte-americanas.
Tarifaço influencia o ambiente político, mas não deve decidir a eleição
Apesar da repercussão das medidas comerciais, a Eurasia entende que o tarifaço dificilmente será o fator determinante para o resultado das eleições presidenciais de 2026.
Ainda assim, a consultoria avalia que o episódio produz efeitos políticos importantes. Pesquisa Genial/Quaest divulgada na quinta-feira (16) mostrou que 51% dos brasileiros atribuem ao senador Flávio Bolsonaro responsabilidade pelas novas tarifas impostas pelos Estados Unidos.
O levantamento também aponta reflexos na disputa eleitoral. Segundo a pesquisa, 42% dos entrevistados afirmaram que a decisão norte-americana aumenta a disposição de votar no presidente Lula.
Os números indicam que, embora a política comercial não costume ser o principal tema das eleições brasileiras, decisões internacionais podem influenciar a percepção dos eleitores sobre a condução das relações diplomáticas e econômicas do país.
Brasil prepara resposta, mas prioriza procedimentos legais
Após o anúncio das novas tarifas dos EUA, o governo brasileiro confirmou que utilizará os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade Comercial para avaliar uma resposta oficial.
Contudo, a própria estrutura da legislação exige uma série de procedimentos administrativos antes que qualquer medida possa ser aplicada. A necessidade de consultas técnicas, pareceres e audiências públicas reduz a possibilidade de uma reação imediata.
Para a Eurasia, esse calendário institucional praticamente elimina a possibilidade de uma retaliação formal antes da realização das eleições presidenciais, mantendo o tema no campo diplomático durante os próximos meses.
Ao mesmo tempo, especialistas apontam que a estratégia brasileira busca preservar espaço para futuras negociações, evitando ampliar o conflito comercial em um momento de elevada sensibilidade política.
Relação bilateral pode abrir nova fase em 2027
Mesmo projetando dificuldades em um eventual segundo mandato de Lula, a Eurasia avalia que as relações entre Brasil e Estados Unidos tendem a encontrar maior estabilidade após o encerramento do processo eleitoral.
Segundo a consultoria, uma nova janela de negociação poderá surgir em 2027, quando os incentivos políticos para ambos os governos retomarem o diálogo poderão superar as tensões acumuladas durante o período eleitoral.
Enquanto isso, a evolução das tarifas dos EUA continuará sendo acompanhada de perto por empresas exportadoras, investidores e pelo governo brasileiro, já que qualquer alteração nas barreiras comerciais pode afetar o fluxo de negócios entre as duas maiores economias do continente.