Audiência nos EUA coloca Flávio no centro das tarifas

Flávio Bolsonaro participou de uma audiência pública do USTR, em Washington, para defender o cancelamento das tarifas sobre produtos brasileiros e reforçar a importância do Pix nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos.

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07 de jul, 2026 às 20:00
Fotografia em plano médio do senador Flávio Bolsonaro. Ele é um homem branco de cabelos curtos e escuros, veste terno preto, camisa azul clara e gravata azul com padrões geométricos. Ele está gesticulando com as duas mãos abertas enquanto fala em um púlpito com dois microfones à sua frente. Foto: Carlos Moura/Agência Senado

A participação de Flávio Bolsonaro nos EUA ganhou novos contornos nesta terça-feira (7), durante audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), em Washington. O senador do PL do Rio de Janeiro aproveitou o espaço para defender o cancelamento das tarifas propostas sobre produtos brasileiros, reforçar a defesa do Pix e sustentar que uma negociação direta entre Brasil e Estados Unidos seria mais eficiente do que a adoção de novas barreiras comerciais. Nos bastidores, aliados avaliaram que a viagem poderá fortalecer sua imagem política caso o governo americano recue da proposta de sobretaxas.

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A audiência ocorreu em Washington, diante de um público restrito formado por empresários, representantes do setor produtivo, advogados e integrantes do governo norte-americano. Sem transmissão ao vivo, o encontro reuniu participantes convidados para apresentar argumentos relacionados à investigação comercial conduzida pelo USTR.

Antes do início da sessão, a equipe de Flávio Bolsonaro realizou os últimos ajustes no discurso. A principal preocupação era esclarecer o posicionamento do senador após interpretações sobre um documento entregue anteriormente às autoridades americanas. Segundo interlocutores, a estratégia passou a enfatizar que a defesa era pelo cancelamento definitivo das tarifas, e não apenas pelo adiamento da medida.

Além disso, o roteiro foi reforçado para destacar a importância do Pix como instrumento de inclusão financeira e defender a abertura de negociações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos como alternativa às restrições comerciais.

Discurso combinou economia e cenário político

Ao abrir o oitavo painel da audiência, Flávio Bolsonaro utilizou os cinco minutos previstos para defender que as tarifas poderiam produzir efeitos econômicos negativos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros.

Segundo o senador, a adoção de novas barreiras comerciais acabaria provocando um resultado político contrário ao esperado pelas autoridades americanas. Em sua avaliação, uma sobretaxa sobre produtos brasileiros poderia fortalecer o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um momento de intensa disputa política no país.

Outro ponto destacado durante a apresentação foi a defesa do Pix. Flávio argumentou que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos representa uma política pública voltada à inclusão financeira e não configura concorrência desleal contra empresas americanas do setor de meios de pagamento.

Também foi defendida a continuidade das negociações diplomáticas entre os dois países, evitando medidas que possam ampliar tensões comerciais.

Críticas ao STF e ao governo ampliaram o discurso

Embora a pauta oficial da audiência estivesse relacionada ao comércio internacional, Flávio Bolsonaro dedicou parte significativa da apresentação ao cenário político brasileiro.

Durante sua fala, o senador afirmou que decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) produziram impactos relevantes sobre a política e a economia do país. Também voltou a defender o ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmando que ele seria alvo de perseguição por parte do Judiciário.

Na mesma linha, Flávio criticou medidas relacionadas à moderação de conteúdo nas plataformas digitais, argumentando que elas decorreriam de decisões judiciais e de ações do Poder Executivo, e não de mudanças aprovadas pelo Congresso Nacional.

Esses argumentos foram utilizados para contextualizar, na visão do parlamentar, o ambiente institucional brasileiro e explicar fatores que, segundo ele, influenciaram a abertura da investigação comercial conduzida pelo USTR.

Casos de corrupção também foram citados

Outro trecho que ganhou destaque durante a audiência foi a ampliação das referências a casos de corrupção ocorridos no Brasil.

Segundo relatos de participantes, Flávio Bolsonaro mencionou episódios como o Mensalão, a Operação Lava Jato, a condenação e posterior anulação das condenações do presidente Lula, além de citar investigações envolvendo fraudes no INSS e referências ao Banco Master e a Fábio Luís Lula da Silva.

Apesar das críticas, o senador argumentou que eventuais casos de corrupção possuem responsáveis específicos e que medidas comerciais amplas não deveriam atingir toda a economia brasileira em razão dessas situações.

Na avaliação apresentada durante a audiência, sanções direcionadas a indivíduos seriam mais eficazes do que tarifas capazes de afetar empresas e consumidores.

Perguntas reforçaram defesa contra as tarifas

Após as apresentações iniciais, os participantes responderam aos questionamentos formulados pelos integrantes do USTR.

Questionado sobre quais alternativas os Estados Unidos poderiam adotar para pressionar autoridades brasileiras, Flávio respondeu que existem mecanismos capazes de atingir pessoas específicas sem impor prejuízos ao conjunto da economia nacional.

Ele também reiterou que novas tarifas poderiam aproximar ainda mais o Brasil da China, produzindo um efeito estratégico contrário aos interesses norte-americanos.

Além disso, afirmou acreditar que o cenário político brasileiro poderá passar por mudanças a partir do próximo ano, o que, em sua avaliação, abriria espaço para uma relação mais próxima entre Brasília e Washington.

Bastidores da audiência chamaram atenção

Além do conteúdo apresentado, os bastidores da audiência também chamaram atenção.

Antes do início da sessão, integrantes da organização solicitaram que a equipe interrompesse registros fotográficos dentro do auditório, informando que esse tipo de imagem não era permitido antes da abertura oficial dos trabalhos.

Flávio Bolsonaro permaneceu acompanhado durante toda a programação pelo irmão, Eduardo Bolsonaro, enquanto aguardava sua participação no painel.

Ao lado do senador também participaram representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), da Abicalçados, da Footwear Distributors and Retailers of America (FDRA) e especialistas ligados ao comércio internacional.

Aliados enxergam potencial ganho político

Nos bastidores, integrantes próximos ao senador deixaram a audiência confiantes de que a apresentação ajudou a reorganizar a narrativa construída após a entrega do parecer ao USTR.

A expectativa é que, caso o governo dos Estados Unidos decida retirar ou suavizar a proposta de tarifas nas próximas semanas, Flávio Bolsonaro possa apresentar sua atuação em Washington como um dos fatores que contribuíram para evitar prejuízos às exportações brasileiras.

Assim, uma viagem inicialmente marcada por críticas poderá ser utilizada como argumento político durante o período pré-eleitoral, reforçando a imagem do senador como interlocutor junto às autoridades americanas e como defensor dos interesses econômicos do Brasil diante das negociações comerciais internacionais.