BTG compra carteiras do Banco Master e enfrenta bloqueios judiciais

O BTG Pactual adquiriu mais de R$ 1,1 bilhão em carteiras de crédito consignado do Banco Master entre 2021 e 2023, por meio de operações estruturadas com debêntures.

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Última atualização:  15 de abr, 2026 às 22:37
Fotografia noturna de um edifício comercial moderno com fachada inteiramente de vidro iluminada internamente. Imagem gerada por IA

A compra de carteiras do Banco Master pelo BTG Pactual voltou ao centro das atenções após decisões judiciais bloquearem parte relevante desses ativos. As operações, realizadas entre 2021 e 2023 e nunca divulgadas amplamente ao mercado, envolvem cerca de R$ 1,15 bilhão em crédito consignado — um movimento que agora levanta dúvidas sobre risco, transparência e qualidade dos ativos.

O caso ganhou força nos últimos meses com a liquidação do Banco Master e decisões judiciais que interromperam o fluxo de pagamentos dessas carteiras. Na prática, parte dos valores que deveriam chegar ao BTG está retida, afetando diretamente o retorno esperado dessas operações.

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O principal ponto da crise envolve o bloqueio judicial de recursos ligados às carteiras adquiridas. Decisões do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro permitiram a retenção de valores que seriam repassados ao Banco Master, como forma de compensar dívidas com a previdência estadual.

O problema é que, segundo o BTG e a securitizadora envolvida, esses créditos já haviam sido vendidos — ou seja, não pertenceriam mais ao banco de origem. Ainda assim, a Justiça rejeitou esse argumento em decisões recentes.

Além disso, outra frente de risco envolve carteiras vinculadas ao INSS, que tiveram pagamentos suspensos após suspeitas de irregularidades. Com isso, cerca de R$ 531 milhões em ativos permanecem sem fluxo de caixa, aumentando a incerteza sobre o retorno dessas operações.

Operações bilionárias feitas fora do radar do mercado

As transações que resultaram na compra das carteiras do Banco Master pelo BTG foram estruturadas por meio de debêntures, utilizando a CB Securitizadora como intermediária.

Na prática, o modelo funcionava da seguinte forma: a securitizadora emitia títulos de dívida para captar recursos com investidores, utilizava esse dinheiro para adquirir carteiras de crédito consignado do Master e, posteriormente, repassava os pagamentos recebidos aos investidores com juros elevados.

A primeira operação, em 2021, foi pública e contou com forte atuação do BTG, que coordenou e estruturou a oferta. Além disso, o próprio banco adquiriu a parte mais segura da emissão, no valor de R$ 303 milhões.

Nas etapas seguintes, porém, as operações passaram a ser privadas, reduzindo significativamente o nível de transparência. Nessa fase, o BTG continuou comprando carteiras por meio de um fundo próprio, acumulando mais R$ 850 milhões em ativos.

Rentabilidade alta escondia riscos relevantes

Um dos principais atrativos dessas operações era o retorno elevado. As debêntures ofereciam taxas entre 21% e 25% ao ano, muito acima da média do mercado para produtos de renda fixa.

Esse nível de rentabilidade, no entanto, vinha acompanhado de riscos consideráveis. O modelo permitia ao Banco Master antecipar receitas ao vender carteiras de crédito, enquanto transferia o risco de inadimplência ou problemas operacionais para os investidores — incluindo o próprio BTG.

O resultado foi um ciclo que parecia vantajoso para ambas as partes no curto prazo, mas que agora revela fragilidades importantes, especialmente após a deterioração financeira do banco de origem.

Sinais de problemas na qualidade das carteiras

Além das disputas judiciais, há indícios de que a qualidade dos ativos pode ser inferior ao esperado. Em pelo menos duas ocasiões, carteiras vendidas precisaram ser substituídas, o que levanta dúvidas sobre sua consistência.

Outro ponto relevante é o desempenho da própria securitizadora. Em 2023, a CB registrou prejuízo líquido de R$ 24,6 milhões — um resultado incomum para uma estrutura que deveria gerar receita com a intermediação dos créditos.

Auditores independentes também apontaram incertezas relevantes. Em relatório, destacaram que não conseguiram comprovar adequadamente o valor de R$ 1,22 bilhão em direitos creditórios registrados pela empresa, levantando questionamentos sobre o lastro das operações.

Exposição e contradições no discurso

No total, as operações envolvendo a compra de carteiras do Banco Master permitiram ao banco antecipar cerca de R$ 1,66 bilhão em recursos. Esse volume mostra a dimensão da exposição assumida pelo BTG.

Recentemente, o banqueiro André Esteves afirmou publicamente que não tem interesse em ativos do Master que estão sob gestão de outro banco estatal. No entanto, o BTG ainda mantém em carteira ativos com características semelhantes, originados nas mesmas estruturas.

O que está em jogo

O caso levanta questões importantes sobre transparência, regulação e gestão de risco no mercado financeiro brasileiro. A estrutura via securitização, embora comum, pode dificultar o acompanhamento por parte de órgãos como o Banco Central do Brasil, especialmente quando combinada com operações privadas.

Agora, com ativos bloqueados, disputas judiciais em andamento e dúvidas sobre a qualidade das carteiras, o episódio se torna um teste relevante para o modelo — e para a forma como grandes instituições lidam com ativos de maior risco.