Dívida pública preocupa e Fraga faz alerta ao governo

Ex-presidente do Banco Central avalia que juros elevados, aumento do endividamento do governo e baixo investimento podem agravar a desaceleração da economia brasileira

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Última atualização:  24 de jul, 2026 às 14:02
Fotografia em plano médio de um homem de meia-idade com barba e calvície no topo da cabeça. Ele está em pé, encostado em uma parede de pedra bege em um corredor bem iluminado. Veste uma camisa social branca de mangas compridas dobradas até os antebraços e calça jeans escura, com as mãos nos bolsos. Foto: Dado Galdieri/Bloomberg/Getty Images

O alerta de Armínio Fraga sobre o risco de recessão ganhou força diante do cenário fiscal brasileiro. O ex-presidente do Banco Central afirmou que o país enfrenta uma situação preocupante, marcada pelo crescimento da dívida pública, juros elevados, baixo investimento e dificuldades financeiras enfrentadas por famílias e empresas. Para o economista, a falta de controle das contas públicas pode ampliar os problemas econômicos e levar o Brasil a uma recessão em 2027.

A avaliação foi feita em meio a um cenário de forte pressão sobre o orçamento das famílias e de dificuldades para empresas refinanciarem seus compromissos. Na visão de Fraga, os problemas não são apenas passageiros. Eles refletem desequilíbrios estruturais que exigem mudanças na condução da política fiscal e na qualidade dos gastos públicos.

Risco de recessão aumenta com dívida pública e juros elevados

Para Armínio Fraga, o Brasil apresenta sinais que justificam uma preocupação maior com o futuro da atividade econômica. Mais de 80 milhões de brasileiros estão inadimplentes, enquanto empresas enfrentam dificuldades para obter crédito e renovar dívidas em condições favoráveis.

O cenário é agravado pelo custo elevado do dinheiro. Mesmo com possíveis reduções na taxa básica de juros, as taxas de longo prazo continuam pressionadas, dificultando investimentos e decisões de expansão.

Na avaliação do economista, o país paga caro para captar recursos porque os agentes econômicos enxergam riscos nas contas públicas. Quanto maior a percepção de desequilíbrio fiscal, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo.

Fraga resumiu a situação ao comparar o quadro econômico a uma doença que apresenta sintomas visíveis. Para ele, a necessidade de pagar juros muito altos para tomar dinheiro emprestado demonstra que existe um problema mais profundo na economia brasileira.

O alerta de Armínio Fraga sobre o risco de recessão ocorre, portanto, em um momento no qual o consumo das famílias está pressionado e os investimentos privados permanecem limitados pelo custo do crédito.

Críticas à política fiscal do governo Lula

A política fiscal adotada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está no centro das críticas de Fraga.

O economista reconhece que o governo criou um novo arcabouço fiscal para estabelecer regras para as contas públicas. No entanto, considera que a execução das metas não tem sido suficiente para recuperar a confiança dos agentes econômicos.

Segundo Fraga, os objetivos fiscais estabelecidos no início do mandato já eram relativamente modestos. Mesmo assim, o desempenho das contas públicas teria ficado aquém do necessário para estabilizar a trajetória da dívida.

O resultado, segundo ele, aparece na combinação entre aumento do endividamento e juros elevados. O economista questiona a ideia de que o país estaria submetido a uma austeridade excessiva, argumentando que a dívida pública continua crescendo.

Para Fraga, o problema não está apenas no volume de despesas, mas também na qualidade do gasto público e na dificuldade política de revisar programas, benefícios e despesas que perderam eficiência ao longo do tempo.

Perfil mais curto da dívida aumenta preocupação

Outro sinal destacado pelo ex-presidente do Banco Central é a redução do prazo médio de parte dos títulos emitidos pelo Tesouro Nacional.

Na prática, o encurtamento do perfil da dívida significa que o governo passa a depender mais frequentemente da renovação de seus compromissos. Essa situação pode aumentar a vulnerabilidade do país em momentos de instabilidade nos mercados financeiros.

Quando os juros de longo prazo estão muito altos, o governo pode preferir emitir títulos com vencimentos menores. Entretanto, essa estratégia também aumenta a necessidade de refinanciamento e pode concentrar vencimentos em períodos mais próximos.

Para Armínio Fraga, esse movimento representa um indicativo de que o governo enfrenta dificuldades para administrar o financiamento de longo prazo da dívida pública.

Juros altos prejudicam investimentos e limitam o crescimento

O cenário fiscal tem efeitos diretos sobre a atividade econômica. Com juros elevados, famílias encontram mais dificuldades para financiar imóveis, veículos e outros bens, enquanto empresas adiam projetos de expansão.

Setores como indústria, construção civil e comércio são especialmente afetados pela falta de crédito acessível e previsível. O resultado é uma redução do investimento, justamente em uma economia que historicamente apresenta baixa taxa de formação de capital.

Fraga também chama atenção para o desempenho limitado da renda por habitante no Brasil. Desde meados da década de 1990, o crescimento médio anual per capita tem sido próximo de 1,3%, um ritmo considerado insuficiente para promover uma melhora significativa no padrão de vida da população.

Para o economista, a baixa produtividade ajuda a explicar por que o país encontra dificuldades para crescer de forma mais acelerada e sustentável.

Reformas são necessárias para melhorar as contas públicas

Na avaliação de Fraga, o controle da dívida pública depende de medidas que vão além do aumento da arrecadação.

O economista defende uma revisão da estrutura de gastos do Estado, com mudanças na Previdência, redução de benefícios tributários considerados ineficientes e melhorias na gestão pública.

Os benefícios fiscais também estão entre os pontos de preocupação. Segundo a avaliação apresentada por Fraga, os incentivos tributários representam uma parcela significativa da economia brasileira e deveriam ser analisados com maior rigor.

A revisão dessas despesas, entretanto, enfrenta resistência política. Muitos benefícios atendem a setores organizados da economia, o que torna qualquer tentativa de redução uma decisão difícil para o governo e o Congresso.

Mesmo assim, o economista considera que sem mudanças estruturais o país continuará preso a um ciclo de dívida elevada, juros altos e crescimento limitado.

Inadimplência mostra pressão sobre famílias e empresas

O número elevado de brasileiros inadimplentes é outro elemento importante do diagnóstico econômico.

Com mais de 80 milhões de pessoas enfrentando dificuldades para pagar suas dívidas, o consumo tende a ser afetado. Famílias endividadas reduzem compras e passam a priorizar despesas essenciais.

As empresas também sentem os efeitos do cenário. A combinação entre menor demanda e crédito caro dificulta a rolagem de dívidas e reduz a capacidade de realizar novos investimentos.

Esse ambiente pode enfraquecer ainda mais a atividade econômica caso a situação fiscal não seja estabilizada.

Debate fiscal deve ganhar força nas eleições

O alerta de Armínio Fraga sobre o risco de recessão também deve influenciar o debate político nos próximos meses. Com a aproximação do ciclo eleitoral, a condução das contas públicas tende a ocupar espaço central nas discussões sobre o futuro do país.

Fraga defende que o Brasil precisa de um governo comprometido com a responsabilidade fiscal, mas também capaz de promover crescimento, produtividade e respeito às instituições democráticas.

O economista fez críticas tanto à condução econômica do atual governo quanto a uma eventual volta de grupos ligados ao bolsonarismo ao poder. Para ele, o país precisa encontrar uma alternativa que consiga equilibrar estabilidade institucional e responsabilidade na gestão das contas públicas.

A preocupação central é evitar que uma nova expansão de gastos sem fontes permanentes de financiamento provoque aumento ainda maior da dívida e dos juros.

Controle da dívida depende dos três Poderes

Para enfrentar o problema fiscal, Fraga afirma que o esforço não pode ser limitado ao Executivo.

Na visão do economista, governo, Congresso Nacional e Judiciário precisam participar de um processo mais amplo de revisão das despesas e de melhoria da eficiência do Estado.

Sem uma ação coordenada, o Brasil pode continuar convivendo com juros elevados, inadimplência crescente e baixo crescimento econômico.

O alerta de Armínio Fraga, portanto, aponta para um problema que ultrapassa o debate sobre uma única medida econômica. Para o ex-presidente do Banco Central, o país precisa recuperar a credibilidade fiscal e criar condições para que os juros de longo prazo diminuam.

Com a dívida pública em trajetória preocupante, investimentos ainda limitados e milhões de brasileiros enfrentando dificuldades financeiras, o risco de uma desaceleração mais intensa em 2027 passou a ocupar um espaço importante no debate econômico.

A avaliação de Fraga é que o Brasil ainda pode evitar um cenário mais grave, mas precisa agir antes que a combinação de juros, dívida e baixo crescimento reduza ainda mais o espaço para respostas do governo.