Após trem explodir e causar caos em SP, CPTM volta a operar linhas 11, 12 e 13

Pré-candidato ao governo de São Paulo questiona modelo de concessões após explosão, incêndio e caos nas linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade

imagem do autor
Última atualização:  24 de jul, 2026 às 12:13
Fotografia do interior de um vagão de trem urbano danificado após um incêndio ou vandalismo. O chão está coberto de fuligem, cinzas e escombros escuros. Uma parte do teto ou estrutura interna caiu, ficando inclinada entre as fileiras de assentos vermelhos. Pelo vidro da janela e pelas portas abertas ao fundo, avistam-se edificações da cidade. Foto: Reprodução de TV

A CPTM reassumiu as linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade nesta sexta-feira (24), após uma sequência de falhas graves no transporte ferroviário de São Paulo e a explosão seguida de incêndio em um trem da Linha 12-Safira. A retomada temporária da operação, determinada pelo governo estadual e pela Artesp, ocorre apenas três dias depois de a concessionária Trivia Trens assumir oficialmente o serviço e abriu uma nova frente de críticas ao modelo de concessões adotado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A operação da CPTM terá duração inicial de 90 dias. Desde as 4h desta sexta-feira, as três linhas voltaram a funcionar normalmente, assim como o Expresso Aeroporto, que conecta a Barra Funda ao Aeroporto Internacional de Guarulhos. A decisão é considerada inédita porque representa a primeira vez que o governo paulista reassume a operação de linhas ferroviárias que já haviam sido transferidas para uma empresa privada.

Leia também:

CPTM reassume linhas após falhas e explosão em trem

A intervenção ocorreu depois de uma série de problemas registrados nos primeiros dias de operação da Trivia Trens. O episódio mais grave aconteceu na manhã de quinta-feira (23), quando uma composição da Linha 12-Safira sofreu uma explosão e pegou fogo entre as estações Brás e Tatuapé, na Zona Leste da capital paulista.

Segundo as informações divulgadas pelas autoridades, um curto-circuito provocou o incêndio e afetou o sistema de energia da região. A ocorrência interrompeu o funcionamento das linhas e deixou passageiros em uma situação de emergência. Para sair do local, usuários precisaram abandonar os vagões e caminhar pelos trilhos.

A Polícia Militar foi acionada para auxiliar na retirada dos passageiros. Apesar do susto e dos danos provocados pelo incêndio, não houve registro de pessoas feridas. Imagens divulgadas nas redes sociais mostraram o interior de um dos vagões destruído pelas chamas.

O caso ocorreu no terceiro dia após a Trivia Trens assumir integralmente a operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, que anteriormente estavam sob responsabilidade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.

Artesp investiga falhas e pode punir concessionária

A Agência Reguladora de Transporte do Estado de São Paulo abriu um procedimento administrativo para investigar as causas dos problemas e verificar se houve responsabilidade da concessionária.

A Artesp afirmou que pretende analisar as ocorrências e avaliar o cumprimento das obrigações previstas no contrato. Caso sejam identificadas irregularidades, a empresa poderá sofrer as penalidades estabelecidas no acordo de concessão.

O diretor-presidente da agência, André Isper, classificou a situação como inaceitável e afirmou que a retomada da operação pela CPTM foi necessária para preservar a continuidade do serviço e reduzir os impactos para os passageiros.

A agência também destacou que o contrato prevê mecanismos de acompanhamento e transição operacional. Esses instrumentos, segundo o governo paulista, permitem que o Estado adote medidas emergenciais quando a prestação do serviço não atende aos requisitos estabelecidos.

A decisão de devolver temporariamente a operação à CPTM também reacendeu o debate sobre a fiscalização de serviços públicos concedidos à iniciativa privada.

Tarcísio admite possibilidade de rescindir contrato

O governador Tarcísio de Freitas elevou o tom contra a Trivia Trens após o incêndio. Durante uma agenda pública em Ourinhos, no interior de São Paulo, afirmou que a empresa poderá sofrer sanções e até perder a concessão se não demonstrar capacidade para cumprir as obrigações previstas no contrato.

Segundo o governador, o Estado não hesitará em retirar a empresa da operação caso os problemas não sejam solucionados e as metas contratuais não sejam cumpridas.

Nas redes sociais, Tarcísio também classificou o episódio como inaceitável e afirmou que as responsabilidades serão apuradas. O governador declarou ainda que os contratos atuais possuem mecanismos para permitir uma reação mais rápida do poder público diante de falhas na prestação do serviço.

A crise ocorre em um momento de forte debate político sobre as concessões e privatizações realizadas ou planejadas pelo governo paulista.

Haddad critica modelo de concessões de Tarcísio

O episódio foi usado por Fernando Haddad, pré-candidato do PT ao governo de São Paulo, para criticar a gestão estadual e o modelo de transferência de serviços públicos à iniciativa privada.

Em entrevista à rádio Nova Brasil, Haddad classificou o caos nas linhas ferroviárias como um problema grave de gestão. O ex-ministro da Fazenda afirmou que as imagens de passageiros deixando os trens e caminhando pelos trilhos evidenciam, na avaliação dele, falhas de planejamento, fiscalização e preparação para a transição operacional.

Haddad afirmou que, caso seja eleito governador, pretende revisar contratos firmados durante a gestão de Tarcísio de Freitas. Entre os acordos citados pelo pré-candidato estão os relacionados à CPTM, à Sabesp e ao Centro Administrativo.

O petista também defendeu uma auditoria nos contratos de infraestrutura e serviços públicos para verificar se existem cláusulas que possam prejudicar os cofres estaduais ou comprometer o atendimento à população.

A crítica faz parte de uma estratégia mais ampla de Haddad para questionar o modelo de concessões adotado em São Paulo. Para o pré-candidato, a necessidade de a CPTM reassumir temporariamente linhas concedidas representa um sinal de que os mecanismos de transição e fiscalização precisam ser avaliados.

Trivia Trens afirma ter estrutura para operar as linhas

Em nota, a Trivia Trens afirmou que se preparou para assumir as linhas com uma equipe formada por mais de 2.300 colaboradores. A empresa também informou que realizou um ciclo de treinamentos antes do início da operação.

A concessionária declarou, porém, que recebeu um sistema complexo e marcado por gargalos estruturais acumulados ao longo do tempo. A empresa afirmou que mantém diálogo com o poder público para buscar soluções para os problemas identificados.

A manifestação ocorreu em meio à abertura do procedimento administrativo pela Artesp e à decisão de devolver temporariamente a operação à CPTM.

O que acontece agora com as linhas concedidas?

Durante os próximos 90 dias, a CPTM ficará responsável pela operação das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade, além do Expresso Aeroporto, enquanto a Artesp conduz a apuração sobre as falhas registradas.

O resultado da investigação poderá determinar as próximas medidas contra a Trivia Trens. A empresa poderá receber penalidades previstas no contrato, ser obrigada a cumprir novas exigências ou, em um cenário mais grave, perder a concessão.

A crise também deve manter o transporte público no centro do debate político paulista. Para Haddad, o episódio reforça a necessidade de revisar contratos e ampliar a fiscalização sobre empresas privadas responsáveis por serviços essenciais.

Já o governo Tarcísio sustenta que possui instrumentos para responsabilizar a concessionária e afirma que a continuidade do contrato dependerá da capacidade da empresa de cumprir as obrigações previstas.

Enquanto a investigação avança, a prioridade anunciada pelas autoridades é garantir o funcionamento regular das linhas e evitar novos episódios de interrupção que possam afetar milhares de passageiros diariamente.