Brasil se prepara para boom de baterias e atrai disputa de gigantes chinesas

O Brasil dará um passo decisivo na transição energética ao realizar, em abril, seu primeiro leilão de baterias em larga escala.

imagem do autor
23 de jan, 2026 às 13:00
Vista aérea zenital de uma subestação de energia elétrica. A imagem mostra a complexa rede de torres de transmissão, transformadores e cabos metálicos organizados em linhas paralelas sobre um terreno industrial acinzentado. Foto: Tuane Fernandes / Bloomberg

O Brasil se prepara para um boom de baterias com a realização do seu primeiro leilão de armazenamento de energia elétrica em larga escala, previsto para abril. O certame marca um novo capítulo para o setor elétrico nacional e deve atrair uma disputa intensa entre empresas chinesas, que despontam como favoritas, e grupos como Tesla e Petrobras, interessados em um mercado estratégico para a transição energética e a redução de perdas na geração renovável.

O leilão, organizado pelo governo federal, ocorrerá no Brasil e tem como objetivo contratar projetos de armazenamento por baterias conectados à rede elétrica, capazes de absorver excedentes de energia solar e eólica e devolvê-los ao sistema nos momentos de maior demanda. A expectativa oficial é garantir 2 gigawatts (GW) de capacidade, abrindo caminho para um mercado que pode crescer rapidamente nos próximos anos.

Leia também:

O que está em jogo é a criação, na prática, de um novo segmento do setor elétrico brasileiro. Até agora, o país expandiu fortemente a geração renovável, especialmente solar e eólica, mas sem uma solução eficiente para armazenar energia quando a produção supera o consumo.

Segundo estimativas da BloombergNEF (BNEF), as instalações anuais de baterias no Brasil podem chegar a 1,3 GW até 2030, consolidando o país como um dos principais mercados de armazenamento de energia da América Latina.

Empresas chinesas largam na frente no boom de baterias no Brasil

No contexto desse novo mercado, as empresas chinesas aparecem como as principais beneficiárias do boom de baterias no Brasil. O protagonismo não é por acaso. Entre 2007 e 2024, o setor elétrico respondeu por 45% de todos os investimentos chineses no país, somando cerca de US$ 35 bilhões, de acordo com dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Essas companhias já atuam em geração, transmissão e distribuição de energia no Brasil e acumulam experiência global na integração de sistemas de armazenamento às redes elétricas. Além disso, a China lidera a produção mundial de baterias e controla grande parte da cadeia de suprimentos, desde a fabricação das células até os insumos críticos.

Tesla, Petrobras e outras empresas também entram na disputa

Apesar da vantagem chinesa, o leilão brasileiro de baterias não será um jogo de cartas marcadas. Tesla, Petrobras e Axia Energia participaram da consulta pública do projeto, indicando interesse direto no mercado.

Essas empresas tendem a atuar principalmente como integradoras de sistemas, reunindo baterias, softwares de gestão e sistemas de controle. Já os fabricantes de equipamentos, em sua maioria asiáticos, devem formar parcerias para viabilizar os projetos.

Especialistas avaliam que, independentemente de quem vencer os contratos, boa parte dos equipamentos utilizados nos projetos será de origem chinesa.

Curtailment impulsiona demanda por armazenamento de energia

O principal motor por trás do boom de baterias no Brasil é o problema do curtailment, termo usado quando usinas renováveis precisam reduzir ou interromper a geração por falta de demanda ou limitações da rede.

Em 2025, o país perdeu, em média, 26% da geração solar e 19% da geração eólica, segundo a BNEF. Essas perdas representaram um impacto financeiro estimado em R$ 7 bilhões, evidenciando a urgência de soluções de armazenamento.

As baterias surgem como resposta direta a esse problema, permitindo armazenar energia barata em horários de baixa demanda e redistribuí-la nos picos de consumo.

América Latina acelera projetos de baterias em larga escala

O Brasil não está sozinho nesse movimento. Outros países latino-americanos já avançaram no armazenamento de energia. O Chile foi um dos pioneiros e planeja ampliar significativamente sua capacidade nos próximos cinco anos. A Argentina concedeu 667 megawatts em seu primeiro leilão de baterias, com entrada em operação prevista até 2027. Já o México incluiu ao menos 2,2 GW de armazenamento em seu plano de expansão do setor elétrico.

Esses exemplos regionais reforçam a percepção de que o Brasil corre contra o tempo para não ficar para trás.

Huawei se posiciona como fornecedora estratégica no boom de baterias

Entre as empresas chinesas, a Huawei se destaca pela presença consolidada no Brasil e pela diversificação de atuação no setor de energia. A companhia pretende participar do leilão como fornecedora de equipamentos, incluindo baterias, sistemas de conversão de energia (PCS) e softwares de gerenciamento.

A empresa também tem atuado junto a reguladores, promovendo workshops com a ANEEL e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Em abril de 2025, a Huawei recebeu o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, durante visita oficial à China, para apresentar suas soluções de armazenamento.

Outras gigantes chinesas ampliam presença no setor elétrico brasileiro

Além da Huawei, grupos como State Power Investment (SPIC), China Energy Engineering (CEEC) e China Three Gorges (CTG) também demonstraram interesse no leilão. Todas já possuem ativos relevantes no Brasil, principalmente em geração solar, eólica e hidrelétrica.

O movimento reforça a tendência de aprofundamento da relação energética entre Brasil e China, especialmente em tecnologias ligadas à transição energética.

Governo aposta em investimentos chineses para viabilizar o mercado

O ministro Alexandre Silveira tem atuado diretamente para atrair investidores chineses, participando de reuniões com empresas como CATL, Envision Energy e Sany Heavy Industry. Para o governo, o leilão de baterias é essencial para garantir segurança energética, reduzir desperdícios e sustentar o crescimento das renováveis.

Analistas avaliam que o Brasil dificilmente adotará restrições a equipamentos chineses, ao contrário de alguns países ocidentais, o que tende a consolidar a liderança da China no fornecimento de tecnologia para o boom de baterias no país.

Gostou deste conteúdo? Siga o Melhor Investimento nas redes sociais: 

Instagram | Facebook