Presidente do BCE recebe pagamento do BIS apesar de vedação interna, diz FT
A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, revelou ter recebido cerca de 140 mil euros do Banco de Compensações Internacionais (BIS) em 2025, apesar de normas internas do BCE proibirem remuneração adicional por atividades exercidas no âmbito da função.
Foto: Martin Lamberts/European Central Bank 2019
A informação de que a presidente do BCE recebe pagamento do BIS apesar de vedação interna abriu um novo foco de questionamento sobre regras de governança no alto escalão da política monetária europeia. Segundo reportagem do Financial Times publicada nesta segunda-feira (23), Christine Lagarde recebeu cerca de 140 mil euros anuais por sua participação na diretoria do Banco de Compensações Internacionais (BIS), mesmo diante de normas do Banco Central Europeu que restringem remunerações adicionais a seus funcionários.
O caso veio à tona após questionamentos formais feitos a Lagarde e gerou debate interno na instituição. A revelação ocorre em meio a especulações sobre o futuro da dirigente no comando do BCE, adicionando um componente político à discussão administrativa.
Pagamento do BIS à presidente do BCE: o que aconteceu
De acordo com o Financial Times, a presidente do BCE recebe pagamento do BIS no valor equivalente a 130.457 francos suíços em 2025 — aproximadamente 140 mil euros por ano. O montante foi informado pela própria Lagarde em resposta por escrito a questionamentos feitos pelo eurodeputado alemão Fabio De Masi.
O BIS, sediado na Basileia, na Suíça, não divulga individualmente os valores pagos aos integrantes de seu conselho. No entanto, a confirmação direta por parte de Lagarde tornou pública a informação pela primeira vez.
O ponto central da controvérsia está no fato de que as regras internas do BCE estabelecem que funcionários da instituição não podem aceitar remuneração por atividades desempenhadas no exercício de suas funções oficiais. Como a participação no BIS está relacionada ao cargo ocupado no BCE, o pagamento levantou dúvidas sobre eventual conflito com as normas internas.
O que dizem as regras do BCE e por que há questionamento
Em resposta ao Financial Times, o Banco Central Europeu afirmou que seus funcionários “não podem aceitar remuneração por atividades que realizam no exercício de suas funções no BCE”. A instituição, no entanto, não comentou especificamente o caso envolvendo sua presidente.
A discussão gira em torno da interpretação dessas regras. O argumento central é que a presença de Lagarde no conselho do BIS decorre diretamente de sua posição como presidente do BCE. Assim, críticos internos questionam se o pagamento seria compatível com a política de integridade da própria autoridade monetária.
Segundo a reportagem, funcionários do BCE utilizaram fóruns internos para expressar preocupação com o que consideram um possível “duplo padrão” no tratamento dado à remuneração da presidente.
Esse debate ocorre em um contexto sensível para a credibilidade institucional. Bancos centrais, especialmente o BCE, dependem fortemente de reputação, transparência e independência para manter a confiança dos mercados financeiros e dos governos da zona do euro.
Onde e quando o caso veio à tona
A revelação foi publicada na segunda-feira (23) pelo Financial Times, jornal britânico especializado em economia e finanças internacionais. A reportagem detalha que o pagamento referente a 2025 foi comunicado formalmente nos últimos dias.
A agência Reuters informou que não conseguiu verificar de forma independente as informações publicadas pelo jornal. Procurado, o BIS não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário. O BCE também optou por não se manifestar além da explicação genérica sobre suas regras internas.
Contexto político: incerteza sobre o futuro de Lagarde
O episódio surge em um momento delicado. Na semana anterior, o Financial Times noticiou que Christine Lagarde estaria avaliando a possibilidade de deixar o comando do BCE antes das próximas eleições presidenciais na França.
Posteriormente, a Reuters informou, com base em fontes, que Lagarde teria afirmado a colegas que permanece focada em suas funções e que comunicaria previamente qualquer decisão de renúncia.
Embora não haja confirmação oficial sobre uma eventual saída, o debate sobre a remuneração adicional pode ampliar a pressão política e institucional, especialmente em um período de desafios econômicos para a zona do euro.
O papel do BIS e sua relevância global
O Banco de Compensações Internacionais é conhecido como o “banco dos bancos centrais”. Criado para fomentar cooperação monetária internacional, o BIS atua como fórum de diálogo e coordenação entre autoridades monetárias de diversos países.
A participação de presidentes de bancos centrais em seu conselho é comum e faz parte da arquitetura institucional do sistema financeiro global. No entanto, a remuneração associada a essas funções raramente é tema de debate público.
O caso envolvendo a presidente do BCE recebe pagamento do BIS destaca a importância de regras claras e uniformes de governança, especialmente em instituições responsáveis por decisões que impactam milhões de cidadãos e trilhões de euros em ativos financeiros.
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