Os funcionários do Banco Central (BC) decidiram aumentar a pressão sobre o governo federal e anunciaram hoje que vão iniciar uma “operação padrão” a partir da próxima segunda-feira (3). Essa medida pode atrasar ainda mais o desenvolvimento do Pix, como o Pix automático, e também afetar a regulamentação das criptomoedas.

Operação padrão

O Sindicato Nacional dos Funcionários do Banco Central (Sinal) divulgou uma nota afirmando que os funcionários irão intensificar suas ações, como o adiamento da reunião plenária do Fórum Pix e possíveis atrasos ou interrupções em outros serviços do BC. No entanto, não especificaram quais serviços seriam prejudicados. A “operação padrão” foi aprovada com mais de 95% dos votos durante a assembleia do sindicato realizada na quinta-feira (29).

O Pix automático, que permitiria pagamentos recorrentes automatizados com o consentimento do pagador, já foi adiado para abril de 2024. No entanto, essa data pode ser adiada novamente devido à mobilização dos funcionários, conforme mencionado por Mayara Yano, associada-sênior do BC, durante esta semana.

O BC considera essa agenda importante para aumentar a concorrência, uma vez que atualmente os débitos automáticos dependem de acordos bilaterais entre empresas e instituições, favorecendo os grandes bancos que possuem uma base maior de clientes.

A regulamentação do mercado de criptomoedas também pode enfrentar atrasos devido à falta de pessoal. Além disso, os departamentos da instituição já entraram em contato com instituições financeiras para alertar sobre possíveis atrasos em outras áreas.

A insatisfação dentro do Banco Central é tão grande que técnicos e até mesmo funcionários de cargos mais elevados têm se manifestado abertamente em todas as oportunidades públicas. Normalmente considerados parte da elite do funcionalismo público, os servidores do BC não costumam fazer reivindicações públicas, mas agora têm destacado a deterioração da instituição.

Paralisações e greve

Durante este ano, os servidores têm realizado paralisações pontuais que duram algumas horas ou dias por semana, com o objetivo de reestruturar suas carreiras. Essa reivindicação resultou na maior greve da história da instituição em 2022, durante o governo anterior, mas até o momento não houve avanços significativos para a categoria nem medidas concretas por parte das gestões do Presidente Bolsonaro (PL) e do ex-Presidente Lula (PT).

A greve do ano passado causou diversos atrasos em publicações do Banco Central, como o Boletim Focus, o movimento de câmbio no Brasil, as operações cambiais do BC e até mesmo o Relatório de Poupança, que é divulgado mensalmente.

A insatisfação dos servidores aumentou ainda mais este ano após o governo regulamentar o bônus de eficiência dos auditores fiscais da Receita Federal. Agora, os servidores do BC acusam o Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos (MGI) de agir com “arrogância sem limites”. O presidente do sindicato, Fábio Faiad, afirma que é inaceitável o descaso demonstrado pelo atual Ministério da Gestão e Inovação.

De acordo com o sindicato, membros do MGI negaram avanços na reestruturação da carreira da categoria e criaram diversas dificuldades em relação a outras demandas, em contraste evidente com o tratamento amigável e favorável dado aos servidores da Receita Federal.

Faiad afirma que não há motivos para que os excelentes profissionais do BC, que são servidores públicos concursados e responsáveis por iniciativas como o Pix, o Open Finance e o Sistema de Valores a Receber (SVR), e que atuam com excelência em áreas tão relevantes como a supervisão do sistema financeiro, inclusão financeira, políticas monetárias e cambiais, sejam tratados de forma desigual ou até inferior a outras carreiras do Executivo Federal.

O presidente do Sinal continua dizendo que o enfraquecimento evidente da carreira de especialista do órgão, ao longo da última década, com reajustes salariais abaixo da inflação, a ausência de novos concursos e as crescentes disparidades em relação a outras carreiras similares, coloca em risco as entregas do Banco Central para a sociedade. Além disso, isso também ameaça o cumprimento de sua missão institucional, incluindo seu papel de regulador e fiscalizador do Sistema Financeiro Nacional, bem como sua função de gestor do STR, Selic e Pix.

Manifestações públicas inéditas

A insatisfação no Banco Central atingiu um nível tão elevado que os técnicos e até mesmo os servidores de alto escalão começaram a abordar o assunto de forma aberta, algo inédito, sempre que têm oportunidade pública. Os servidores da autarquia, considerados parte da elite do funcionalismo, geralmente não costumam fazer reivindicações públicas, mas agora estão enfatizando a desestruturação da instituição.

Desde o ano passado, há um desgaste com o presidente do banco, Roberto Campos Neto, quando a categoria realizou a maior greve de sua história, sem obter grandes conquistas. Agora, a percepção é de que o ambiente de trabalho piorou consideravelmente, o que contrasta com outras categorias que recebem promessas de bônus salariais e concursos. Diante disso, os profissionais estão buscando alternativas para suas carreiras. Essa mudança de postura ocorre porque eles têm a percepção de que a situação se deteriorou.

Uma das queixas é a falta de equipes suficientes para conduzir os projetos considerados essenciais pelo Banco Central, como o desenvolvimento do Pix, do real digital e do Open Finance. O último concurso ocorreu em 2013 e, desde então, as áreas foram reduzidas pela metade.

Alguns profissionais já estão procurando vagas no setor privado, argumentando que “do outro lado da rua” a situação de trabalho é muito melhor. Segundo relatos, o setor de tecnologia é o que mais tem se beneficiado desse movimento. Internamente, a percepção é de que estão “saindo de graça” para outras empresas privadas. Os pedidos para que os funcionários sejam cedidos ao mercado ou a organismos internacionais estão ocorrendo em grande quantidade.

Veja também:

Brasil vive “janela de oportunidade” para atrair capital, afirmam CEOs de bancos

Equipe MI

Equipe de redatores do portal Melhor Investimento.