Yellen acende alerta para inflação nos Estados Unidos e vê preços acima da meta até 2031

Ex-presidente do Fed cita tarifas, guerra no Oriente Médio e expansão de data centers como fatores que podem manter os preços elevados; banco central pode voltar a subir os juros

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Última atualização:  23 de jul, 2026 às 18:29
Janet Yellen, uma mulher idosa de cabelos brancos curtos com franja, está sentada em uma poltrona branca falando em um evento. Ela veste uma blusa azul-bic, um blazer escuro texturizado com a gola levantada, calça escura e um colar de contas pretas e prateadas. Ela está gesticulando com a mão esquerda aberta para o lado enquanto fala. Ao fundo, há um painel azul com a inscrição "Council on Foreign Relations" repetida em letras brancas. Em primeiro plano, no canto inferior direito, há uma pequena mesa redonda com dois copos de água e um arranjo de flores vermelhas e roxas. Foto: Yuki Iwamura/Bloomberg

A inflação nos Estados Unidos deve permanecer acima de 2% nos próximos cinco anos, segundo a avaliação de Janet Yellen, ex-presidente do Federal Reserve e ex-secretária do Tesouro americano. A declaração foi feita nesta quinta-feira (23), durante a Expert XP 2026, em um painel sobre as perspectivas da economia americana e global.

Para Yellen, o cenário inflacionário dos Estados Unidos ficou mais complexo devido à combinação de diferentes fatores. Entre eles estão os efeitos das tarifas impostas pela administração de Donald Trump, os riscos provocados pela guerra no Oriente Médio e o forte crescimento dos investimentos em data centers, impulsionado pela expansão da inteligência artificial.

A ex-presidente do Fed também afirmou que o banco central americano está preparado para elevar novamente as taxas de juros caso a escalada do conflito contra o Irã continue provocando impactos sobre a economia e os preços.

Inflação nos Estados Unidos deve ficar acima da meta de 2%

Durante a Expert XP 2026, Janet Yellen afirmou que a inflação americana provavelmente continuará acima da meta oficial de 2% do Federal Reserve em um horizonte de cinco anos.

“Num horizonte de cinco anos, estamos contando com inflação mais alta que 2%”, disse a economista.

A declaração representa uma avaliação de longo prazo sobre a trajetória dos preços nos Estados Unidos. Embora a inflação possa desacelerar em determinados períodos, Yellen considera que a economia americana enfrenta mudanças estruturais e choques que podem dificultar um retorno rápido e permanente ao objetivo perseguido pelo Fed.

O cenário é acompanhado de perto pelo mercado financeiro, especialmente porque a política de juros dos Estados Unidos influencia os investimentos globais, o valor do dólar e as condições de financiamento em diversos países, incluindo o Brasil.

Fed pode voltar a elevar os juros caso a guerra se intensifique

Yellen afirmou que o Federal Reserve está atualmente em uma postura de espera, mas não descartou uma nova alta dos juros caso o conflito envolvendo o Irã se prolongue e gere novos choques econômicos.

Na avaliação da ex-presidente do banco central, uma escalada da guerra pode afetar o abastecimento, os preços de energia e outros custos relevantes para a economia americana. Esses efeitos poderiam aumentar a inflação e obrigar o Fed a adotar uma postura mais rígida.

“Não vejo pressão inflacionária do mercado de trabalho, na forma de salários. Mas pode haver outros efeitos colaterais”, afirmou.

Yellen disse que, se ainda fizesse parte do Federal Reserve, analisaria cuidadosamente a natureza desses choques antes de tomar uma decisão. A preocupação, segundo ela, estaria em distinguir impactos temporários de uma pressão inflacionária que pudesse se tornar persistente.

A economista ressaltou que preferiria observar se os efeitos dos choques de abastecimento diminuiriam, mas afirmou que acompanharia de perto os riscos para a inflação.

Tarifas de Trump mantêm pressão sobre os preços

Outro ponto central da avaliação de Janet Yellen é o impacto das tarifas comerciais implementadas pelo governo de Donald Trump.

Segundo a ex-secretária do Tesouro, os efeitos das tarifas sobre os preços internos dos Estados Unidos têm durado mais do que o inicialmente esperado. A política comercial pode aumentar o custo de produtos e componentes importados, fazendo com que parte dessa elevação seja repassada para empresas e consumidores.

Esse processo cria um desafio adicional para o Federal Reserve. Ao mesmo tempo em que o banco central precisa evitar uma inflação elevada, também precisa considerar os efeitos que juros mais altos podem provocar sobre o crescimento econômico.

A combinação entre tarifas e outros fatores externos amplia a incerteza sobre o comportamento dos preços.

Guerra no Oriente Médio aumenta os riscos de novos choques de oferta

A instabilidade geopolítica é outro fator que preocupa Yellen. Uma escalada do conflito envolvendo o Irã pode provocar novos problemas nas cadeias de abastecimento e aumentar a volatilidade dos preços de energia e de outras matérias-primas.

Para os bancos centrais, choques desse tipo são especialmente difíceis de administrar. Uma alta de preços causada por problemas de oferta não pode ser combatida da mesma maneira que uma inflação provocada por excesso de demanda.

Ainda assim, caso o aumento dos custos se espalhe por diferentes setores da economia e altere as expectativas de inflação, o Federal Reserve pode ser pressionado a manter os juros elevados por mais tempo ou até a aumentar novamente as taxas.

Data centers adicionam nova pressão à economia americana

Yellen também destacou o impacto do forte ciclo de investimentos em data centers, especialmente em razão da expansão da inteligência artificial.

A construção e a operação dessas estruturas exigem grandes quantidades de energia, equipamentos e mão de obra especializada. Com o avanço dos investimentos, a demanda por esses recursos aumenta e pode gerar pressão sobre setores específicos da economia.

O movimento representa uma transformação estrutural importante. Ao mesmo tempo em que os investimentos em tecnologia podem estimular o crescimento e elevar a produtividade, também podem aumentar a procura por determinados insumos e serviços.

Esse é um dos motivos pelos quais a inflação nos Estados Unidos pode continuar enfrentando pressões mesmo em um cenário no qual o mercado de trabalho não apresente fortes aumentos salariais.

Mercado de trabalho não é o principal foco de preocupação de Yellen

Apesar do alerta sobre a inflação, Janet Yellen afirmou que não identifica atualmente uma pressão inflacionária significativa originada nos salários.

Para a economista, os riscos mais relevantes estão relacionados a fatores externos e a choques de oferta. Tarifas, guerra e mudanças estruturais associadas aos investimentos em tecnologia podem exercer influência sobre os preços independentemente da evolução dos salários.

Essa avaliação é importante para a política monetária porque mostra que o Fed pode enfrentar um cenário diferente de períodos anteriores, quando a inflação era impulsionada principalmente pela demanda aquecida e pelo mercado de trabalho.

Yellen relembra crise financeira e mudanças provocadas pela pandemia

Durante o painel da Expert XP 2026, a ex-presidente do Federal Reserve também comparou o momento atual com outras fases de grande instabilidade econômica.

Ela lembrou que a crise financeira global provocou um impacto severo sobre a economia americana e levou o Fed a reduzir os juros para níveis próximos de zero. A recuperação, no entanto, ocorreu de forma mais lenta do que muitos esperavam.

Com o desemprego ainda elevado, os dirigentes do banco central passaram a discutir outro elemento importante da política monetária: a taxa de juros neutra. Esse indicador representa, em linhas gerais, o nível de juros que não estimula nem freia significativamente a atividade econômica.

Posteriormente, a pandemia trouxe novos desafios. As interrupções nas cadeias de abastecimento provocaram escassez de produtos e aumentaram os custos em diversas áreas. Além disso, os padrões de consumo mudaram, com os consumidores direcionando mais gastos para bens e menos para serviços.

Essas mudanças contribuíram para uma nova onda de pressões inflacionárias e mostraram como choques inesperados podem alterar rapidamente o cenário econômico.

Cenário internacional continuará influenciando as decisões do Fed

As declarações de Janet Yellen reforçam que o Federal Reserve continuará enfrentando um ambiente de elevada incerteza.

A inflação nos Estados Unidos poderá ser influenciada simultaneamente por decisões comerciais, conflitos geopolíticos, investimentos em novas tecnologias e mudanças na dinâmica da economia global.

Por isso, as próximas decisões do banco central americano deverão continuar dependendo da evolução dos indicadores de preços, emprego e atividade econômica. Uma nova escalada da guerra no Oriente Médio, a permanência dos efeitos das tarifas ou o aumento das pressões sobre energia e infraestrutura podem mudar as expectativas do mercado.

A avaliação de Yellen sugere, portanto, que a inflação americana pode permanecer acima da meta de 2% por um período prolongado. Para o Fed, o desafio será equilibrar o combate à alta dos preços com a necessidade de preservar o crescimento econômico.

As declarações foram feitas durante o painel “Perspectivas Econômicas dos EUA e Globais: Desafios de Curto Prazo e Tendências de Longo Prazo”, conduzido pelo economista-chefe da XP, Caio Megale, na Expert XP 2026.