Casa de R$ 2 milhões vira alvo de tribunal do crime do PCC

Uma investigação do Ministério Público de São Paulo aponta que a disputa pela venda de uma casa de R$ 2 milhões na Riviera de São Lourenço foi levada ao suposto "tribunal do crime" do PCC.

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Última atualização:  21 de jul, 2026 às 16:23
Fotografia noturna mostrando a fachada de uma casa moderna de alto padrão com vários andares e iluminação embutida. Em frente à residência, está estacionada uma viatura policial com os giroflex vermelhos acesos, iluminando a rua e a fachada do imóvel. Foto: Divulgação

A investigação sobre uma casa de R$ 2 milhões na Riviera de São Lourenço ganhou novos desdobramentos após o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) apontar que a disputa envolvendo a negociação do imóvel teria sido levada ao chamado “tribunal do crime” do Primeiro Comando da Capital (PCC). O caso integra a Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira (21), que apura um esquema de lavagem de dinheiro e a atuação de empresários em parceria com integrantes da organização criminosa.

Segundo os promotores, o conflito pela venda da residência deixou de ser tratado apenas na esfera comercial e passou a ser conduzido por membros da facção criminosa. A apuração indica que empresários investigados recorreram voluntariamente ao mecanismo paralelo de resolução de conflitos utilizado pelo PCC para tentar solucionar o impasse envolvendo o imóvel localizado em Bertioga, no litoral paulista.

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Casa de R$ 2 milhões na Riviera teria motivado intervenção do PCC

De acordo com o Ministério Público, o empresário Cléber Azevedo dos Santos, apontado como vendedor da casa, e Marcelo de Morais Oliveira, identificado como comprador, passaram a divergir sobre o pagamento de aproximadamente R$ 2 milhões referentes à negociação do imóvel.

As investigações apontam que, diante da falta de entendimento entre as partes, Cléber buscou auxílio de pessoas que mantinham ligação com integrantes do PCC. A partir desse contato, o conflito teria sido encaminhado ao chamado “tribunal do crime”, estrutura clandestina utilizada pela facção para mediar disputas e impor decisões fora do sistema oficial de Justiça.

O episódio passou a integrar uma das principais linhas de investigação da Operação Janus por demonstrar, segundo o MP, a aproximação entre empresários investigados por crimes financeiros e integrantes da organização criminosa.

Operação Janus resulta em prisões e busca por foragidos

A Operação Janus foi deflagrada na terça-feira (21) para cumprir mandados de prisão preventiva e de busca contra suspeitos de integrar um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao PCC.

Conforme divulgado pelas autoridades, 11 pessoas foram presas durante a operação. Outros dois investigados já se encontravam detidos por processos anteriores. Além disso, cinco suspeitos permanecem foragidos, entre eles Leonardo Meirelles, considerado procurado em outras investigações.

Entre os alvos estão empresários, intermediadores financeiros e pessoas apontadas como integrantes ou colaboradores da facção criminosa.

Mensagens em celulares fortaleceram as investigações

Grande parte das provas reunidas pelo Ministério Público foi obtida a partir da análise de celulares apreendidos durante as investigações.

Segundo os promotores, as conversas revelam que o conflito envolvendo a casa de luxo extrapolou uma negociação comercial comum e passou a ser tratado diretamente por integrantes do PCC.

As mensagens indicam que Cléber Azevedo recebeu apoio de Antonio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antonio Fontana para estabelecer contato com pessoas ligadas à organização criminosa.

Para os investigadores, esse conjunto de conversas demonstra que houve uma busca deliberada por influência da facção para solucionar um impasse patrimonial.

Liderança do PCC teria acompanhado o caso

As apurações também citam Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moinho, apontado pelo Ministério Público como uma das lideranças do PCC.

Segundo a investigação, ele teria sido apresentado ao empresário e acompanhado os desdobramentos da disputa envolvendo a casa da Riviera de São Lourenço.

Em uma das conversas analisadas, Cléber compartilha uma reportagem sobre Léo do Moinho e afirma que ele iria “acompanhar as ideias”. Para os promotores, o conteúdo reforça a tese de que lideranças da facção foram acionadas para participar da resolução do conflito.

Reuniões antecederam o suposto “tribunal do crime”

Os investigadores afirmam que, em maio de 2023, foi realizada uma reunião na Zona Sul da capital paulista para discutir o impasse relacionado ao imóvel.

Segundo o Ministério Público, Marcelo de Morais Oliveira compareceu ao encontro acompanhado por pessoas ligadas ao PCC. Como não houve consenso durante a negociação, o caso teria sido encaminhado ao chamado “tribunal do crime”.

Ainda conforme as investigações, novas mensagens fazem referência às chamadas “ideias do comando” e ao “resumo de SP”, expressão que, segundo os promotores, corresponde ao sistema interno utilizado pela facção para deliberar sobre conflitos envolvendo pessoas relacionadas ao grupo.

Grupo de WhatsApp continha áudio do suposto julgamento

Outro elemento considerado importante pela investigação foi a descoberta de um grupo de WhatsApp denominado “Assunto Pertinente a casa Riviera”.

No grupo havia um áudio que, segundo o Ministério Público, pode ter registrado parte da reunião em que o caso foi discutido.

Os investigadores afirmam ter identificado a participação de pessoas apontadas como lideranças da organização criminosa, entre elas Antonio Carlos Sampaio, conhecido como “Compadre” ou “Kaka”, além de um integrante identificado apenas pelo apelido de “Zoio”.

Também foi identificado um encontro presencial realizado em novembro de 2023 para tratar do conflito, reunindo diversos investigados citados na decisão judicial que autorizou as prisões preventivas.

Ministério Público aponta histórico de aproximação com a facção

Segundo os promotores, a disputa envolvendo a casa de R$ 2 milhões na Riviera não teria sido um episódio isolado.

A investigação sustenta que Cléber Azevedo já teria recorrido anteriormente ao PCC para tentar solucionar outro conflito patrimonial relacionado à aquisição de um galpão na Zona Leste de São Paulo.

Embora o empresário não seja apontado como integrante formal da organização criminosa, o Ministério Público afirma que as mensagens analisadas demonstram submissão às regras internas da facção e reconhecimento de sua hierarquia para resolver disputas privadas.

As investigações continuam para esclarecer a participação individual de cada suspeito, identificar o fluxo financeiro relacionado ao esquema de lavagem de dinheiro e verificar a extensão da atuação da organização criminosa em conflitos patrimoniais envolvendo empresários. Até o momento, os fatos apresentados pelo Ministério Público fazem parte da acusação e serão analisados pela Justiça ao longo do processo.