Caixa tem 158 contas abertas por escravizados e caso vai ao MPF; herdeiros podem ser indenizados
Banco localizou documentos do século XIX; herdeiros podem buscar reparação financeira no futuro
Foto: VEETMANO PREM/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO
A Caixa Econômica Federal identificou pelo menos 158 cadernetas de poupança abertas por pessoas escravizadas no século XIX. A descoberta foi feita após uma investigação conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF), que busca entender o destino dos valores depositados e avaliar possíveis reparações a herdeiros dos antigos correntistas.
O levantamento reúne cerca de 14 mil documentos históricos relacionados às movimentações financeiras feitas durante o período imperial brasileiro. Segundo o MPF, parte do material ainda não recebeu tratamento arquivístico adequado, o que dificulta a análise completa das informações.
As contas foram abertas principalmente após a criação da Lei do Ventre Livre, em 1871, que reconheceu oficialmente o direito de pessoas escravizadas acumularem recursos próprios, conhecidos como “pecúlios”, para comprar a própria liberdade. Há também registros anteriores à lei, em casos em que terceiros realizavam depósitos em nome dos escravizados.
A investigação ganhou relevância por envolver questões históricas, patrimoniais e de direitos humanos. O objetivo agora é identificar o que aconteceu com os recursos guardados nessas contas e se existem descendentes que possam reivindicar algum tipo de reparação.
Como funcionavam as contas dos escravizados
Durante o período escravista, alguns trabalhadores escravizados conseguiam obter renda em atividades extras autorizadas pelos proprietários. Parte desse dinheiro era utilizada para formar reservas financeiras destinadas à compra de cartas de alforria.
Segundo historiadores, isso ocorria principalmente em áreas urbanas, onde havia maior circulação comercial e prestação de serviços.
Entre os principais perfis estavam:
- escravizados que realizavam trabalhos domésticos remunerados;
- vendedores ambulantes de alimentos e mercadorias;
- trabalhadores ligados à Casa Imperial;
- profissionais que prestavam serviços a terceiros mediante autorização dos senhores.
Os depósitos eram feitos obrigatoriamente na Caixa Econômica Federal, criada em 1861 pelo Império com foco na população de baixa renda.
Especialistas apontam que o valor necessário para obter a liberdade variava bastante na época, dependendo da idade, saúde e profissão do escravizado. Estimativas históricas indicam que uma carta de alforria poderia equivaler hoje a cerca de R$ 300 mil, considerando métodos hipotéticos de atualização monetária.
MPF quer esclarecimentos sobre destino do dinheiro
O Ministério Público Federal afirma que ainda existem muitas dúvidas sobre o que aconteceu com os valores depositados nas contas após a abolição da escravidão, em 1888, e a Proclamação da República, no ano seguinte.
De acordo com o procurador Julio Araujo, responsável pelo caso no Rio de Janeiro, é necessário garantir acesso completo aos documentos históricos para compreender se os recursos permaneceram na instituição financeira ou se foram retirados posteriormente.
O órgão também avalia se a ausência de respostas sobre essas contas ao longo de décadas pode configurar violação de direitos históricos e institucionais.
Além da possível localização de herdeiros, o MPF discute medidas que podem incluir:
- preservação permanente do acervo histórico;
- divulgação pública dos documentos;
- pedidos formais de reconhecimento histórico;
- eventual reparação coletiva ou individual.
A Caixa já havia sido acionada anteriormente pelo MPF para prestar esclarecimentos, mas as respostas foram consideradas insuficientes. Agora, o órgão pede informações mais detalhadas sobre os métodos utilizados nas pesquisas e a estrutura responsável pela análise documental.
Investigação envolve milhares de documentos históricos
Os documentos encontrados têm mais de 150 anos e incluem livros de registros bancários, movimentações financeiras e informações sobre correntistas do período imperial.
Segundo o Arquivo Nacional, a Caixa já possuía agências em diversas províncias brasileiras no século XIX, incluindo Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais, Pernambuco, São Paulo e Pará. Parte das contas identificadas pode ter origem nessas regiões.
A dificuldade para localizar herdeiros envolve fatores históricos e burocráticos. Em muitos casos, os registros da época continham apenas prenomes dos escravizados ou referências aos proprietários, o que torna o cruzamento de dados mais complexo.
Além disso, não existe uma fórmula simples para atualizar monetariamente os valores das contas, já que o Brasil passou por diversas trocas de moeda, planos econômicos e períodos de hiperinflação ao longo de mais de um século.
O que diz a Caixa
Em nota, a Caixa Econômica Federal informou que a preservação e pesquisa de seu acervo histórico fazem parte de um trabalho contínuo realizado por equipes multidisciplinares ligadas à Caixa Cultural.
O banco afirmou ainda que novas análises em livros de contas correntes e outros documentos históricos continuam em andamento e que os resultados serão divulgados conforme a legislação aplicável.
A investigação também recebeu apoio jurídico do Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), que considera legal e constitucional o pedido para que a Caixa apresente informações detalhadas sobre as contas abertas por pessoas escravizadas.
Debate amplia discussão sobre memória histórica
O caso reacendeu debates sobre memória histórica, reparação e preservação documental no Brasil. Para pesquisadores, o levantamento ajuda a revelar aspectos pouco conhecidos da relação entre o sistema financeiro brasileiro e o período escravista.
Especialistas afirmam que os registros demonstram que pessoas escravizadas buscavam construir patrimônio próprio mesmo em condições extremamente limitadas, utilizando o sistema bancário como instrumento para tentar conquistar liberdade e autonomia financeira.
A expectativa agora é que novas análises ampliem o número de contas identificadas e ajudem a reconstruir parte dessa história ainda pouco documentada.
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