Adeus, B3: por que empresas estão deixando a bolsa mesmo com o Ibovespa em recorde
Mesmo com o Ibovespa renovando recordes em 2025, o número de empresas deixando a B3 tem crescido.
Ibovespa hoje
O movimento recente de companhias fechando capital reacendeu a pergunta-chave: por que empresas estão deixando a bolsa em um momento em que o Ibovespa bate sucessivos recordes? A dúvida ganhou destaque após a espanhola Iberdrola anunciar, nesta semana, uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) para comprar todas as ações da Neoenergia e retirar a elétrica da B3. O anúncio ocorreu no Brasil, em meio a um cenário de forte alta do índice, que ultrapassou os 159 mil pontos na última sexta-feira (28). A seguir, entenda o que está acontecendo, por que esse movimento se tornou tão comum e o que ele revela sobre o mercado acionário brasileiro.
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Entre 2023 e outubro de 2025, 32 empresas deixaram a B3, segundo levantamento de Einar Rivero, da Elos Ayta. Só em 2025, dez companhias já saíram da bolsa, incluindo Santos Brasil, Carrefour Brasil e JBS — que foi incorporada à BRF após fusão. A Neoenergia pode ser a próxima.
Esse movimento ocorre mesmo enquanto o Ibovespa acumula alta superior a 31% no ano, impulsionado pela entrada de capital estrangeiro e pelo diferencial de juros do Brasil em relação ao exterior. Na prática, o principal termômetro da renda variável brasileira vive um momento histórico, mas isso não significa que todas as empresas se beneficiam da maré positiva.
Por que empresas estão deixando a bolsa: custos, juros e percepção de valor baixo
A principal explicação para por que empresas estão deixando a bolsa passa por fatores estruturais que afetam especialmente companhias de médio porte — e até algumas grandes — no momento atual.
a) Manter-se listada ficou caro
Governança corporativa, auditorias frequentes, normas contábeis rigorosas e uma área robusta de Relações com Investidores elevam substancialmente os custos de uma empresa listada. Segundo analistas, muitos controladores entendem que o benefício de permanecer na bolsa não compensa tais despesas.
b) Juros muito altos tiram a atratividade das ações
Com a Selic a 15% ao ano desde junho, o investidor passa a exigir retornos superiores a esse patamar para justificar o risco de investir em ações. Muitas companhias não conseguem garantir esse nível de rentabilidade no curto prazo, e as ações acabam sendo negociadas a preços considerados baixos demais pelos controladores.
c) Controladores acham que suas ações estão baratas demais
De acordo com especialistas, diversos grupos empresariais avaliam que suas empresas estão negociadas com forte desconto. Assim, fazer uma OPA para fechar capital pode ser, para esses controladores, uma forma de recomprar o negócio por um preço que consideram vantajoso.
d) Reestruturações e fusões impulsionam OPAs
A compra de 48% da Santos Brasil pela francesa CMA CGM e a combinação entre JBS e BRF são exemplos de operações que naturalmente levam à saída da B3. A Iberdrola, por sua vez, justificou sua oferta pela Neoenergia como forma de “simplificar a estrutura corporativa e aumentar a flexibilidade de gestão”.
O que é uma OPA e como ela funciona
A Oferta Pública de Aquisição é o processo pelo qual um controlador compra as ações que estão com demais investidores para fechar o capital da empresa. Ela funciona como o oposto de um IPO — que marca a entrada na bolsa. No atual ambiente, a OPA tem sido usada como instrumento para reduzir pressões, cortar custos e reorganizar estruturas internas.
Por que o Ibovespa bate recordes, mas isso não impede as saídas
A alta do Ibovespa não reflete a realidade de todo o mercado. O índice é extremamente concentrado: Vale, Petrobras e grandes bancos representam parcela significativa do peso total. Quando esses poucos gigantes sobem, o Ibovespa avança — mesmo que grande parte das ações esteja lateralizada ou em queda.
Além disso, 58% do fluxo da B3 neste ano veio de investidores estrangeiros. Parte desse capital busca oportunidades táticas em um momento em que os EUA reduzem juros e diminuem o rendimento dos Treasuries, fazendo países emergentes como o Brasil parecerem mais atrativos.
O que esse movimento revela sobre o mercado
Especialistas concordam: a valorização atual da bolsa brasileira é mais correção de atraso do que um boom sustentável. Enquanto isso, a falta de novos IPOs — o último ocorreu em 2021 — e o foco dos investidores em renda fixa reforçam o ambiente para que empresas considerem deixar a bolsa.
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