Carne, queijo e menos pão: nova pirâmide alimentar dos EUA gera críticas da ciência
Diretriz americana muda foco da dieta, prioriza proteínas e laticínios integrais, mas entra em contradição com recomendações da OMS
Imagem: realfood.gov
O governo dos Estados Unidos divulgou nesta quarta-feira (7) a nova diretriz Dietary Guidelines for Americans 2025–2030, que traz mudanças relevantes na orientação alimentar da população. O documento apresenta uma pirâmide alimentar invertida, com maior destaque para proteínas de origem animal e laticínios integrais, enquanto arroz, pães e outros carboidratos refinados perdem espaço.
Segundo o texto oficial, a mensagem central é incentivar o consumo de “comida de verdade” e reduzir alimentos altamente processados. No entanto, o material aponta contradições com recomendações consolidadas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de guias alimentares adotados em outros países.
Nova pirâmide alimentar dos EUA aumenta consumo de proteína animal
Entre as principais mudanças, a nova diretriz aumenta a meta diária de proteína para 1,2 a 1,6 grama por quilo de peso corporal, com ênfase no consumo em todas as refeições e priorização de fontes animais integrais, como carne vermelha, ovos, queijos e leite integral.
Na versão anterior (2020–2025), o foco estava em um padrão alimentar equilibrado, inspirado na dieta mediterrânea, com incentivo a carnes magras, grãos integrais e laticínios com baixo teor de gordura.
Menos arroz, pão e açúcar na dieta
Agora, o governo americano recomenda redução explícita de carboidratos refinados, como arroz branco, pães processados e produtos feitos com farinha refinada, além de reforçar o corte no consumo de açúcar adicionado.
Ultraprocessados entram no alvo
Um dos pontos considerados avanço por nutricionistas é a posição mais dura contra alimentos ultraprocessados. As diretrizes alertam para evitar produtos como refeições prontas, doces industrializados, salgadinhos e alimentos com aditivos artificiais, abordagem alinhada ao Guia Alimentar para a População Brasileira.
O documento também afirma que nenhuma quantidade de açúcar adicionado é ideal, embora mantenha o limite anterior de até 10% das calorias diárias.
Conflitos com a OMS e alertas de especialistas
Apesar do discurso de alimentação natural, a nova pirâmide alimentar entra em choque com evidências científicas consolidadas. Segundo a nutricionista Lara Natacci, PhD pela USP, em depoimento a Veja Rio, não há base robusta para recomendar uma ingestão elevada de proteína para toda a população.
A OMS indica cerca de 0,8 g de proteína por quilo de peso corporal, reservando níveis mais altos para situações específicas, como hipertrofia muscular ou envelhecimento associado à prática regular de exercícios.
Outro ponto sensível é o destaque à carne vermelha. A OMS e o Instituto Nacional de Câncer (INCA) recomendam limitar o consumo a até 500 gramas por semana, devido à associação entre ingestão excessiva e maior risco de câncer colorretal e doenças cardiovasculares.
Especialistas também criticam a abordagem mais permissiva sobre gorduras saturadas e o incentivo ao consumo de laticínios integrais. A Associação Americana do Coração alertou que essas orientações podem levar ao excesso de sódio e gordura saturada, principais fatores de risco para doenças cardíacas.
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