Reforma tributária cria IVA que pode chegar a 28%: impactos para empresas e consumidores

Novo modelo substitui tributos antigos e altera a forma de cobrar e repassar impostos

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Última atualização:  26 de fev, 2026 às 18:11
Pessoa analisando documentos e calculadora sobre mesa, conceito de Imposto Sobre Valor Agregado (IVA). Foto: Envato Elements

O sistema de impostos sobre consumo no Brasil está passando por uma das maiores mudanças das últimas décadas. Com a aprovação da Lei Complementar nº 214/2025, o país iniciou a transição para o modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA), adotado em grande parte do mundo.

A mudança será gradual, começando em 2027 e com implementação completa prevista para 2033.

Na prática, o novo modelo vai substituir tributos como ICMS, ISS, PIS e Cofins. Também será incorporado ao novo sistema o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), que deixará de existir no formato atual. A promessa é simplificar a cobrança, reduzir disputas entre Estados e tornar o sistema mais transparente.

Mas o impacto não será apenas técnico. Empresas, consumidores e governos terão que se adaptar a uma nova lógica de tributação.

A seguir, o Melhor Investimento explica como o IVA vai funcionar na prática, qual pode ser a alíquota final, o que é o Imposto Seletivo, como será a transição até 2033 e quais impactos são esperados para empresas, consumidores e o ambiente de investimentos.

Por que o Brasil decidiu mudar o sistema

O modelo atual de tributação sobre o consumo é considerado complexo e fragmentado. Cada imposto possui regras próprias, diferentes bases de cálculo e múltiplas exceções.

Além disso, parte deles incide de forma cumulativa, o que significa que o imposto pago em uma etapa da cadeia produtiva pode gerar novo imposto na etapa seguinte.

Esse efeito, conhecido como “cascata”, encarece produtos e serviços ao longo do tempo. Também cria distorções econômicas, já que empresas passam a tomar decisões influenciadas pela carga tributária e não apenas pela eficiência do negócio.

Outro problema recorrente é a chamada guerra fiscal entre Estados, que disputam empresas oferecendo benefícios tributários. Isso gera insegurança jurídica e aumenta o número de disputas judiciais.

Hoje, empresas brasileiras chegam a gastar cerca de 1.500 horas por ano apenas para cumprir obrigações tributárias, segundo estimativas amplamente citadas no debate sobre a reforma.

A adoção do IVA busca enfrentar esses pontos de forma estrutural.

O que é o IVA e como ele funciona?

O Imposto sobre Valor Agregado (IVA) é um modelo que cobra tributo apenas sobre o valor que cada empresa adiciona ao produto ou serviço ao longo da cadeia produtiva.

Funciona assim: em cada etapa de produção ou comercialização, a empresa paga imposto sobre sua venda, mas pode descontar o imposto que já pagou na etapa anterior. Dessa forma, evita-se a cobrança em cascata.

No Brasil, o modelo será dual:

  • A União ficará responsável pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS).
  • Estados e Municípios arrecadarão o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).

Apesar de serem dois tributos distintos, ambos terão a mesma base de cálculo e regras harmonizadas. Isso mantém a autonomia dos entes federativos, mas reduz a complexidade para as empresas.

Além desses dois tributos, foi criado o Imposto Seletivo (IS), que incidirá sobre produtos considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, como cigarros, bebidas alcoólicas, alimentos com alto teor de açúcar, veículos mais poluentes, apostas e pesticidas.

O objetivo é desestimular o consumo desses itens e substituir parcialmente a função que hoje é exercida pelo IPI em determinados setores.

Princípios que orientam o novo sistema

A reforma foi construída com alguns princípios centrais:

Neutralidade

O imposto não deve influenciar decisões econômicas. A ideia é que empresas escolham fornecedores, locais de investimento ou modelos de negócio por critérios de eficiência, e não por vantagens tributárias.

Transparência

O IVA será cobrado “por fora” do preço. Isso significa que o valor do imposto aparecerá de forma destacada na nota fiscal, tornando mais clara a carga tributária.

Além disso, o imposto não integrará sua própria base de cálculo, evitando o chamado “cálculo por dentro”, que hoje aumenta a carga efetiva em alguns tributos.

Crédito amplo

Bens e serviços utilizados na atividade econômica poderão gerar créditos. Isso evita acúmulo de imposto e reduz distorções.

Tributação no destino

O imposto será recolhido no local de consumo, e não no local de produção. Essa mudança tende a diminuir conflitos entre Estados.

A reforma também preserva mecanismos específicos para manter os diferenciais competitivos da Zona Franca de Manaus, dentro da nova estrutura tributária.

Como será a transição

A implementação será gradual. Entre 2027 e 2033, o sistema atual e o novo modelo vão coexistir. Isso exigirá atenção redobrada das empresas, que terão que lidar com duas estruturas tributárias ao mesmo tempo.

No início, haverá alíquotas reduzidas para teste e adaptação. Aos poucos, os tributos antigos serão extintos, até que o IVA esteja totalmente em vigor.

Esse período de transição é considerado um dos maiores desafios operacionais da reforma tributária.

Alíquota estimada e limite de cobrança

Embora a alíquota final ainda dependa de regulamentações complementares, estimativas iniciais apontam para uma taxa média próxima de 28%, podendo chegar a aproximadamente 28,4% a depender dos regimes especiais mantidos.

Esse patamar colocaria o Brasil acima da média da União Europeia, que gira em torno de 21%, e dos países da OCDE, cuja média é próxima de 19%.

Países como o Japão aplicam alíquota de 10%, enquanto a Hungria possui uma das mais altas do mundo, com 27%. Já os Estados Unidos não adotam um modelo nacional de IVA.

A legislação também prevê uma espécie de “trava” para a alíquota de referência, com limite estimado em 26,5%.

Caso a soma de benefícios e exceções pressione o percentual para cima, mecanismos de revisão poderão ser acionados. Essa regra busca impor disciplina ao sistema e evitar crescimento excessivo da carga tributária.

Exemplo prático de cobrança

Para entender a lógica do IVA, imagine um produto vendido por R$ 100 com alíquota de 25%.

O imposto total seria de R$ 25. No entanto, se o fabricante já pagou imposto sobre insumos adquiridos anteriormente, ele poderá descontar esse valor. Assim, o tributo final incide apenas sobre o valor efetivamente agregado.

Isso torna o sistema mais previsível e reduz o efeito cumulativo que existia antes.

Comparação com outros países

O IVA não é uma inovação brasileira. Mais de 160 países utilizam modelos semelhantes. Na América do Sul, países como Uruguai, Argentina e Paraguai já operam com sistemas de imposto sobre valor agregado há anos.

Embora cada país tenha suas particularidades, há características comuns:

  • Base ampla de incidência
  • Permissão de créditos ao longo da cadeia
  • Tributação no destino
  • Menor espaço para disputas entre entes federativos

A experiência internacional indica que sistemas mais simples tendem a reduzir custos administrativos e litígios.

Impactos econômicos esperados

A mudança no sistema tributário pode influenciar o ambiente de negócios de várias formas.

Redução de litígios

O Brasil possui um dos maiores volumes de disputas tributárias do mundo. Com regras mais claras e uniformes, a expectativa é diminuir a judicialização.

Maior previsibilidade

Empresas passam a ter mais clareza sobre o custo efetivo dos tributos, o que facilita planejamento de longo prazo.

Possível reequilíbrio de preços

Setores que hoje acumulam créditos ou sofrem com tributação em cascata podem ter mudanças relevantes na estrutura de preços.

No entanto, o impacto não será igual para todos os segmentos.

Além disso, especialistas destacam que o IVA não resolve todos os problemas do sistema tributário brasileiro. Questões como carga total elevada, complexidade de regimes especiais e tributação sobre renda e folha de pagamento continuam fora do escopo principal da reforma.

O caso dos shopping centers

Um dos setores que já analisa de perto os efeitos da reforma é o de shopping centers. Isso acontece porque esses empreendimentos combinam diversas fontes de receita, como aluguel de lojas, estacionamento, publicidade e serviços.

Cada tipo de receita pode ter tratamento tributário diferente dentro do novo modelo.

Locação de imóveis

A legislação prevê redução relevante de alíquota para locação imobiliária. Isso tende a aliviar a carga efetiva nesse segmento.

Estacionamento

Já receitas de estacionamento podem ser tributadas pela alíquota cheia, o que pode impactar preços ao consumidor final.

Publicidade e mídia

Dependendo da classificação, essas receitas podem ser tratadas como locação de espaço ou como prestação de serviço. Essa definição influencia diretamente a carga tributária.

Créditos sobre investimentos

Uma mudança considerada positiva para empresas intensivas em capital é a possibilidade de uso mais amplo de créditos.

No modelo atual, parte dos créditos de PIS e Cofins sobre investimentos (capex) é apropriada ao longo do tempo. Com o IVA, a tendência é permitir utilização mais imediata desses valores.

Isso pode melhorar o fluxo de caixa e estimular novos projetos.

Desafios operacionais

Apesar das promessas de simplificação no longo prazo, a adaptação exigirá esforço.

Empresas terão que:

  • Atualizar sistemas de faturamento
  • Rever contratos com fornecedores e clientes
  • Ajustar controles internos
  • Treinar equipes fiscais e contábeis

Durante a fase de transição, a convivência entre dois modelos pode gerar dúvidas e aumento temporário de custos administrativos.

Impacto para pequenas e médias empresas

Pequenas empresas também precisarão se adaptar, especialmente aquelas que operam fora do Simples Nacional.

Embora o sistema prometa simplificação, a fase inicial pode exigir investimento em tecnologia e consultoria tributária.

Por outro lado, a padronização de regras tende a reduzir distorções que hoje prejudicam negócios menores que competem com grandes grupos beneficiados por regimes especiais.

Efeitos para o consumidor

O consumidor poderá perceber maior transparência nas notas fiscais, já que o imposto será destacado.

Quanto aos preços, o efeito dependerá do setor. Em alguns casos, pode haver redução de custos ao longo da cadeia. Em outros, pode ocorrer ajuste para cima, especialmente onde a carga efetiva aumentar.

A reforma não tem como objetivo elevar a carga tributária total, mas redistribuí-la de forma mais uniforme.

Relação com o ambiente de investimentos

Investidores acompanham a implementação do IVA com atenção. Um sistema tributário mais previsível tende a melhorar a avaliação de risco do país.

Redução de disputas fiscais e maior clareza nas regras podem contribuir para decisões de investimento de longo prazo, inclusive de capital estrangeiro.

Ao mesmo tempo, o período de transição exige cautela, já que ajustes regulatórios e interpretações iniciais podem gerar incerteza.

O que esperar nos próximos anos

Até 2033, o Brasil viverá um período de adaptação. A cada etapa da implementação, ajustes operacionais serão feitos.

Empresas que começarem a se preparar com antecedência tendem a enfrentar menos dificuldades. Revisão de contratos, análise de impacto financeiro e atualização de sistemas são medidas já discutidas no mercado.

No longo prazo, a expectativa é que o país passe a ter um sistema de tributação sobre consumo mais alinhado aos padrões internacionais.

A adoção do IVA representa uma mudança estrutural na forma como o Brasil tributa bens e serviços. A substituição de impostos antigos por um modelo baseado no valor agregado busca reduzir distorções, simplificar regras e aumentar a transparência.

O impacto será gradual e exigirá adaptação de empresas e governos. Para o mercado, o novo sistema pode trazer mais previsibilidade e menos conflitos federativos. Já para consumidores, a principal mudança será maior clareza sobre o peso dos tributos no preço final.

Os próximos anos serão decisivos para avaliar como a reforma funcionará na prática e quais setores conseguirão se adaptar com mais eficiência ao novo cenário tributário.

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Carolina Gandra

Jornalista do portal Melhor Investimento, especializada em criptomoedas, ações, tecnologia, mercado internacional e tendências financeiras. Transforma temas complexos como blockchain, inteligência artificial e estratégias de mercado em conteúdos acessíveis e envolventes. Com análises atuais e visão estratégica, ajuda leitores a decifrar o futuro dos investimentos e identificar oportunidades no mercado financeiro.