Resultado do Enamed 2025 pressiona ações do setor educacional na Bolsa
Reação do mercado reflete risco regulatório e pressão sobre receitas das educacionais listadas
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Mais de 100 cursos de medicina no Brasil receberam avaliação insatisfatória no Enamed 2025, exame do Ministério da Educação que mede a qualidade da formação médica. A divulgação dos resultados também repercutiu no mercado financeiro, com impacto sobre ações de empresas de educação listadas na B3.
Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (19), em Brasília, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), e indicam que cerca de 30% dos 351 cursos avaliados ficaram com conceitos 1 ou 2, os mais baixos da escala.
Segundo o balanço oficial, 107 graduações tiveram desempenho considerado insuficiente, o que pode resultar em sanções como redução de vagas, suspensão de novos ingressos e restrições a programas federais, como o Fies, aumentando o risco regulatório para o setor educacional.
Desempenho desigual entre instituições
A análise por tipo de instituição mostrou diferenças significativas nos resultados do Enamed. As piores avaliações ficaram concentradas principalmente em universidades públicas municipais, onde 87,5% dos cursos obtiveram conceitos 1 ou 2.
Entre as instituições privadas com fins lucrativos, 58,4% das graduações também ficaram nas faixas mais baixas.
Já os melhores desempenhos foram registrados em universidades públicas federais e estaduais. Nas federais, 87,6% dos cursos alcançaram conceitos 4 ou 5, considerados elevados.
Entre as estaduais, esse percentual foi de 84,7%. Instituições comunitárias e confessionais também apresentaram resultados acima da média, com quase metade dos cursos bem avaliados.
Lista inclui universidades públicas e privadas
Levantamento publicado pelo portal Metrópoles, com base nos microdados do Enamed 2025, aponta que 24 faculdades de medicina receberam a menor nota possível no exame, conceito 1. A lista reúne instituições públicas e privadas distribuídas por diferentes regiões do país.
Entre as faculdades com pior desempenho estão:
- Faculdade São Leopoldo Mandic de Araras (SP);
- Faculdade Estácio de Jaraguá do Sul (SC);
- Faculdade Zarns (GO), em Itumbiara;
- Universidade de Rio Verde (GO), campus Formosa;
- Universidade de Rio Verde (GO), campus Goianésia;
- Centro Universitário Estácio do Pantanal (MT), em Cáceres;
- Centro Universitário CEUNI-FAMETRO (AM), em Manaus;
- Centro Universitário UNINORTE (AC), em Rio Branco;
- Faculdade Metropolitana (RO), em Porto Velho;
- Faculdade Municipal Prof. Franco Montoro (SP), em Mogi Guaçu;
- Faculdade da Saúde e Ecologia Humana (MG), em Vespasiano;
- Centro Universitário Alfredo Nasser (GO), em Aparecida de Goiânia;
- Faculdades de Dracena (SP);
- Centro Universitário das Américas (SP);
- Centro Universitário de Adamantina (SP);
- União das Faculdades dos Grandes Lagos (SP), em São José do Rio Preto;
- Centro Universitário de Goiatuba (GO);
- Universidade Nilton Lins (AM), em Manaus;
- Universidade Federal do Pará (PA), campus Altamira;
- Universidade de Mogi das Cruzes (SP);
- Universidade do Contestado (SC), em Mafra;
- Universidade Brasil (SP), em Fernandópolis;
- Centro Universitário Presidente Antônio Carlos (MG), em Juiz de Fora;
- Universidade Estácio de Sá (RJ), campus Angra dos Reis.
Segundo o Ministério da Educação, cursos que receberam conceito 1 estão sujeitos às punições mais severas previstas na regulação federal, como suspensão de novos ingressos, redução drástica de vagas e impedimento de participação em programas como Fies e Prouni.
MEC avalia medidas e direito de defesa
O MEC informou que todas as instituições terão prazo para apresentar defesa antes da aplicação das penalidades. No entanto, cursos vinculados ao sistema federal de ensino, que inclui universidades privadas e federais, poderão sofrer sanções administrativas já nos próximos meses.
Apesar de constar na lista, a Universidade Federal do Pará, campus Altamira, não está sujeita às mesmas punições regulatórias aplicadas às instituições privadas, mas deverá apresentar plano de melhoria acadêmica.
Especialistas no setor de educação avaliam que o resultado reforça preocupações sobre a expansão acelerada de cursos de medicina no país, muitas vezes sem estrutura adequada de ensino, corpo docente suficiente ou campos de prática compatíveis com a formação médica.
Impacto direto para alunos e faculdades
De acordo com o Ministério da Educação, as penalidades serão aplicadas de forma escalonada. Cursos que receberam conceito 2 terão redução no número de vagas autorizadas.
Já aqueles com conceito 1 poderão sofrer suspensão total de novos ingressos, além de ficarem impedidos de acessar programas federais de financiamento e apoio estudantil.
Em coletiva de imprensa, o ministro da Educação, Camilo Santana, explicou que nem todas as instituições mal avaliadas sofrerão sanções imediatas, já que faculdades estaduais e municipais não estão sob regulação direta do MEC.
Ainda assim, das 107 graduações com notas insuficientes, 99 pertencem ao sistema federal de ensino e poderão ser penalizadas.
“As instituições terão prazo para apresentar defesa. O objetivo não é punir, mas garantir a melhoria da qualidade do ensino médico e proteger a população que será atendida por esses profissionais”, afirmou o ministro.
Impacto no mercado financeiro
A divulgação das notas do ENAMED também repercutiu diretamente no mercado financeiro, especialmente entre as empresas de educação com ações negociadas na B3.
Investidores reagiram ao aumento do risco regulatório e ao possível impacto sobre a expansão de vagas, captação de alunos e rentabilidade futura dos cursos de medicina, considerados os mais lucrativos do setor.
Reação das ações na Bolsa
No pregão seguinte à publicação dos resultados, papéis de companhias educacionais registraram forte volatilidade. A Ser Educacional (SEER3) e a Ânima Educação (ANIM3) lideraram as perdas, enquanto Yduqs (YDUQ3) e Cogna (COGN3) também fecharam em queda.
Analistas avaliam que o movimento reflete, sobretudo, o temor de restrições administrativas por parte do Ministério da Educação e de um enfraquecimento do poder de precificação desses cursos.
Avaliação de analistas e risco regulatório
Relatórios de casas como BTG Pactual, Genial Investimentos e bancos internacionais apontam que grupos com maior exposição a cursos avaliados com notas baixas tendem a sofrer impacto proporcionalmente maior.
Em alguns casos, estimativas indicam que até 15% das vagas podem ser afetadas, o que reduz perspectivas de crescimento orgânico no curto e médio prazo.
Expectativas e cenário em aberto
Apesar da reação negativa inicial, analistas ponderam que o efeito sobre os fundamentos das empresas ainda depende da regulamentação definitiva das possíveis sanções e do espaço para contestação administrativa e judicial.
Como o ENAMED é anual, há expectativa de que parte das instituições tente reverter resultados ou ganhar tempo para ajustes antes da aplicação de medidas mais duras.
No mercado, a avaliação predominante é de cautela. Embora o impacto imediato sobre as ações tenha sido significativo, o cenário segue em aberto, com investidores atentos aos próximos movimentos do MEC e à capacidade das empresas de mitigar riscos regulatórios e preservar margens.
Como funciona o Enamed
Criado em 2025, o Enamed é uma adaptação do Enade voltada exclusivamente para cursos de medicina. A prova é obrigatória e avalia tanto estudantes concluintes quanto alunos de outros períodos. Na edição de 2025, participaram cerca de 89 mil estudantes, sendo aproximadamente 39 mil concluintes.
Entre os formandos avaliados, apenas 67% atingiram o nível de proficiência considerado adequado pelo Inep. O restante não demonstrou domínio satisfatório dos conteúdos exigidos para a prática médica.
Além de medir a qualidade do ensino, o resultado individual do Enamed pode ser utilizado em processos seletivos para programas de residência médica vinculados ao Ministério da Educação, o que amplia o impacto do exame na trajetória profissional dos estudantes.
Este conteúdo foi útil? Siga o Melhor Investimento nas redes sociais: