Por que o ovo de Páscoa continua caro mesmo com a queda do cacau

O ovo de Páscoa continua caro neste ano porque a indústria comprou o cacau quando os preços estavam em alta recorde.

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02 de abr, 2026 às 06:30
Três ovos de Páscoa dispostos lado a lado em uma prateleira. Imagem: Carlos Alberto Silva

Apesar da redução do preço do cacau no Brasil e nas bolsas internacionais, o ovo de Páscoa continua caro para o consumidor nesta temporada. Chocolates vendidos nas prateleiras foram produzidos com amêndoas compradas meses atrás, quando os valores da matéria-prima estavam em alta recorde. Até a metade de março de 2026, a inflação do chocolate em barra e dos bombons chegou a 24,8% em 12 meses, segundo dados do IBGE, mantendo o impacto no bolso do brasileiro.

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O principal motivo para o ovo de Páscoa caro é o cronograma de compras da indústria de chocolate. As fabricantes adquirem manteiga e pó de cacau das processadoras com 6 a 12 meses de antecedência, garantindo estoque para produção e estabilidade frente à volatilidade do mercado.

Para os chocolates desta Páscoa, a indústria chegou a pagar entre US$ 6 mil e US$ 10 mil por tonelada pelos subprodutos do cacau, enquanto atualmente o preço caiu para cerca de US$ 3 mil por tonelada. Essa diferença explica por que, mesmo com a queda do preço da matéria-prima, os valores nas lojas permanecem altos.

Queda nos preços pagos aos produtores

Enquanto os consumidores enfrentam preços elevados, os produtores de cacau no Brasil recebem valores muito menores. Na Bahia, a média atual é de R$ 167 por arroba, menos de um quarto do valor registrado em março do ano passado (R$ 718). No Pará, o quilo do cacau caiu de R$ 44 para R$ 9,50.

A redução no preço pago ao produtor é resultado de uma combinação de fatores: menos demanda da indústria, excesso de cacau disponível e ajustes nas fórmulas dos chocolates, que passaram a utilizar menos manteiga de cacau e barras menores.

O que motivou a disparada de preços

O preço elevado do chocolate na Páscoa é consequência de uma forte queda na colheita de cacau no Brasil e nos principais produtores africanos, como Costa do Marfim e Gana, em 2024. O fenômeno climático El Niño provocou secas e chuvas no momento errado, além de pragas e doenças que afetaram a produção.

A indústria brasileira depende principalmente de cacau nacional (cerca de 80%) e complementa com importações (20%) de países africanos. A competição internacional, especialmente com Europa e Estados Unidos, agravou a escassez de cacau no mercado doméstico, contribuindo para a alta do preço do chocolate.

Perspectivas de normalização dos preços

Especialistas indicam que o preço do ovo de Páscoa caro deve começar a se ajustar a partir do segundo semestre de 2026. A produção mundial de cacau cresceu 11% na safra 2024/25, impulsionada por condições climáticas favoráveis, e o mercado inicia um processo de normalização após três safras consecutivas de déficit, algo que não ocorria desde a década de 1960.

Além disso, a redução do dólar e o aumento das importações contribuíram para equilibrar o mercado. Bezzon afirma que, se os preços internacionais e domésticos se mantiverem baixos, haverá uma normalização gradual ao longo do ano, refletindo também no preço final ao consumidor.

Impactos para produtores e ações do governo

A queda nos preços do cacau levou a protestos de agricultores. Em fevereiro de 2026, produtores interditaram a BR 101 em Ibirapitanga, Bahia, pedindo maior controle sobre a importação de cacau e melhores preços para a produção nacional.

Em resposta, o Ministério da Agricultura suspendeu temporariamente importações da Costa do Marfim, citando riscos sanitários relacionados a pragas e doenças. A medida também foi interpretada como uma tentativa de atender às reivindicações do setor produtivo, enquanto o mercado africano enfrenta excesso de cacau e dificuldades para escoar a produção.