El Niño pode elevar inflação e encarecer alimentos no Brasil

O fenômeno climático tem alta probabilidade de ganhar força nos próximos meses e pode pressionar a produção agrícola, elevar preços nos supermercados e afetar a política econômica.

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Última atualização:  06 de jul, 2026 às 14:41
Cereais em tigelas grandes para café da manhã rápido e seco self-service. Imagem: Envato Elements.

O possível retorno do El Niño em forte intensidade volta a preocupar economistas, produtores rurais e autoridades brasileiras. Além dos impactos climáticos, especialistas avaliam que o fenômeno pode reduzir a oferta de diversos alimentos, pressionar a inflação e provocar novos reajustes nos preços encontrados pelos consumidores nos supermercados.

As projeções mais recentes apontam para um cenário de maior risco. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima mais de 60% de probabilidade de o El Niño atingir forte intensidade entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Já o primeiro boletim de monitoramento divulgado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) em parceria com outros órgãos federais indica mais de 90% de chance de o fenômeno persistir até o início de 2027, com elevada possibilidade de atingir intensidade considerada muito forte.

Diante desse cenário, o Ministério da Fazenda acompanha os possíveis efeitos sobre a economia e avalia revisar para cima sua estimativa oficial de inflação para 2026, que anteriormente era de 4,5%, caso os impactos sobre os preços dos alimentos se confirmem.

Clima mais extremo pode pressionar inflação dos alimentos

Os especialistas afirmam que os primeiros reflexos tendem a aparecer justamente nos alimentos mais sensíveis às mudanças climáticas. Segundo o pesquisador Leandro Gilio, do Insper Agro Global, os efeitos sobre os preços são praticamente inevitáveis caso o fenômeno comprometa o calendário agrícola.

“Certamente vai impactar preço dos alimentos. É meio que inevitável, principalmente se afetar as janelas de plantio ou mesmo prejudicar a produção na hora da colheita”, afirmou o pesquisador ao G1.

Hortaliças costumam responder rapidamente às alterações no clima, mas, caso o El Niño se intensifique, culturas de ciclo mais longo também poderão sofrer perdas relevantes ao longo de 2027.

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Milho deve ser um dos produtos mais afetados

Entre as principais culturas brasileiras, o milho aparece como uma das mais vulneráveis. Enquanto a soja costuma registrar ganhos de produtividade em anos de El Niño, estudos mostram que a produção global de milho pode recuar cerca de 4% durante episódios do fenômeno.

No Brasil, o atraso no plantio da soja no Centro-Oeste reduz a janela ideal para a segunda safra de milho. Como consequência, produtores podem diminuir a área cultivada ou migrar para culturas consideradas mais resistentes, como o sorgo.

No Sul, o excesso de chuvas também preocupa, já que favorece doenças e compromete a qualidade dos grãos. A menor oferta do cereal ainda provoca efeitos indiretos importantes. O milho é um dos principais componentes da ração utilizada na produção de aves, suínos e bovinos confinados, elevando os custos da cadeia de proteínas animais.

Café, laranja, cana e arroz também entram no radar

Além dos grãos, outras cadeias agrícolas importantes também podem enfrentar dificuldades. Segundo análises do Itaú BBA, o café arábica corre risco de sofrer com o estresse hídrico provocado pelas altas temperaturas e pela redução da umidade do solo. Esse cenário pode provocar floradas irregulares, comprometer a produtividade e reduzir a qualidade dos grãos.

No caso do café conilon, o excesso de chuvas em estados como Espírito Santo e Rondônia pode atrasar a colheita e favorecer a proliferação de pragas e doenças, reduzindo a oferta e pressionando os preços.

A citricultura também pode ser afetada. O calor intenso previsto para o cinturão citrícola paulista durante a primavera aumenta o risco de abortamento das flores, reduzindo a produção de laranja e elevando os preços do suco.

Na cana-de-açúcar, os impactos variam conforme a região. Enquanto chuvas acima da média no Centro-Sul podem reduzir a concentração de açúcar na planta durante a colheita, a seca prevista para áreas do Nordeste ameaça o desenvolvimento dos canaviais.

Segundo especialistas, trigo, arroz, frutas e leite também figuram entre os produtos que poderão registrar maior sensibilidade ao comportamento do clima.

O setor pecuário também poderá sentir os efeitos do fenômeno. O Inmet projeta maior risco de escassez de água para as pastagens principalmente nas regiões Centro-Oeste e Norte, reduzindo a disponibilidade de alimento para o rebanho e dificultando o ganho de peso dos animais. A menor oferta de pasto também pode afetar a produção de leite, elevando os custos da atividade.

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Algumas regiões podem ser beneficiadas

Apesar dos riscos para parte da produção agrícola, o El Niño não produz impactos uniformes em todo o território nacional.

Segundo o Inmet, algumas áreas do Nordeste poderão registrar condições favoráveis para determinadas culturas. A combinação entre temperaturas elevadas e menor volume de chuvas tende a favorecer a colheita do feijão e aumentar a qualidade de frutas produzidas em polos irrigados, como melão e melancia.

Já no Sul, embora o excesso de chuva represente risco para diversas lavouras, algumas culturas de inverno podem ser beneficiadas pela maior disponibilidade hídrica.

Inmet prevê calor acima da média e maior risco de incêndios

O primeiro boletim oficial sobre o El Niño divulgado pelo Inmet também reforça que o segundo semestre deverá ser marcado por temperaturas acima da média em grande parte do país.

A previsão climática para o trimestre entre julho e setembro aponta chuvas acima da média na Região Sul e abaixo da média no centro-norte do Brasil. Além disso, o aumento das temperaturas deve elevar a ocorrência de ondas de calor e ampliar o risco de incêndios florestais, especialmente nas regiões mais secas.

Segundo os modelos climáticos analisados pelo instituto, existe alta probabilidade de o El Niño permanecer ativo pelo menos até o início de 2027, com possibilidade de atingir intensidade muito forte, quando as temperaturas da superfície do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais de 2°C acima da média histórica.

Lucas Machado

Redator e psicólogo com quase 5 anos de experiência na produção de artigos e notícias sobre uma ampla gama de temas. Suas áreas de interesse e expertisse incluem previdência, seguros, direito sucessório e finanças, em geral. Atualmente, faz parte da equipe do Melhor Investimento, abordando uma variedade de tópicos relacionados ao mercado financeiro.