Aposta errada em IA faz Polen Capital perder US$ 50 bi
A Polen Capital se tornou um dos principais exemplos dos riscos de ficar fora do boom da inteligência artificial.
Foto: Reprodução
A aposta errada em IA transformou a trajetória da Polen Capital em um dos casos mais emblemáticos de Wall Street nos últimos anos. A gestora americana, sediada em Boca Raton, na Flórida, viu seu patrimônio sob gestão encolher cerca de US$ 50 bilhões desde 2021 após manter distância da Nvidia, principal beneficiária do avanço da inteligência artificial.
Enquanto investidores ampliavam posições em empresas ligadas à IA, a Polen Capital optou por concentrar recursos em companhias de software. A estratégia, que parecia coerente para seus gestores, acabou produzindo resultados muito abaixo do mercado, provocando perdas de clientes, queda nos ativos administrados e mudanças internas na empresa.
O episódio evidencia como a revolução da inteligência artificial está redefinindo o mercado financeiro global e alterando as teses de investimento adotadas por gestoras tradicionais.
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Aposta contra a Nvidia custou US$ 50 bilhões à Polen Capital
A queda da Polen Capital está diretamente ligada à sua avaliação sobre a Nvidia. Durante o período em que a fabricante de chips se consolidava como uma das maiores vencedoras da corrida pela inteligência artificial, a gestora decidiu não incluir o papel entre suas principais apostas.
Em vez disso, manteve forte exposição a empresas de software como Adobe, Salesforce e ServiceNow, acreditando que essas companhias continuariam liderando o crescimento do setor de tecnologia.
A decisão se mostrou equivocada. Desde meados de 2023, as ações da Nvidia acumularam uma valorização expressiva, impulsionadas pela crescente demanda por chips utilizados em sistemas de inteligência artificial generativa.
Como consequência, os ativos sob gestão da Polen Capital recuaram de aproximadamente US$ 83 bilhões no auge, em 2021, para cerca de US$ 33 bilhões atualmente. A redução representa uma perda de quase 60% do patrimônio administrado pela gestora.
Fundo principal ficou entre os piores da categoria
Os impactos da estratégia ficaram ainda mais evidentes no principal produto da casa, o Polen Growth Fund.
Conhecido por manter uma carteira concentrada em poucas ações de crescimento, o fundo atravessou um período de desempenho muito inferior ao observado nos principais índices americanos.
Os investimentos do produto estão cerca de 45% abaixo do pico alcançado em 2021. Além disso, o patrimônio do fundo despencou de aproximadamente US$ 14 bilhões para menos de US$ 2 bilhões.
Dados de mercado mostram que o produto passou a ocupar as últimas posições entre fundos de perfil semelhante, refletindo a dificuldade da gestora em acompanhar a valorização das empresas mais beneficiadas pela inteligência artificial.
A situação também levou algumas instituições financeiras a retirarem a estratégia de suas listas de recomendações para clientes.
Gestora manteve visão negativa sobre chips de IA por anos
A aposta errada em IA não aconteceu por falta de debate dentro do mercado.
Ao longo de 2023 e 2024, investidores questionaram repetidamente a ausência da Nvidia nas carteiras administradas pela Polen Capital. Mesmo assim, a equipe responsável pela estratégia continuou defendendo que o entusiasmo em torno da fabricante de chips era excessivo.
Os gestores acreditavam que o modelo de software como serviço, conhecido como SaaS, seguiria sendo o principal motor de crescimento do setor de tecnologia.
Na visão da empresa, grande parte do potencial de valorização da Nvidia já estaria incorporada ao preço das ações. O mercado, entretanto, tomou direção oposta e continuou impulsionando os papéis da companhia.
A divergência entre a tese da gestora e a realidade do mercado acabou ampliando as perdas e contribuindo para o enfraquecimento da confiança dos investidores.
Clientes retiraram recursos e executivos deixaram a empresa
Com os resultados abaixo do esperado, os reflexos não demoraram a aparecer.
A partir de 2023, a Polen Capital passou a registrar saídas relevantes de clientes institucionais e investidores de varejo. O movimento reduziu ainda mais os ativos administrados pela empresa.
Paralelamente, diversos executivos deixaram a organização. Entre os profissionais que saíram estão nomes ligados às áreas de operações, compliance, finanças e relacionamento com clientes.
Nos últimos anos, a empresa também promoveu cortes significativos em sua estrutura de funcionários. Segundo relatos de pessoas familiarizadas com a situação, cerca de metade da força de trabalho foi reduzida durante o processo de reestruturação.
Polen só mudou de estratégia no fim de 2025
Mesmo diante da pressão dos investidores, a mudança de postura aconteceu apenas no final de 2025.
Após revisar suas projeções para o setor de semicondutores, a Polen Capital concluiu que havia subestimado o impacto da inteligência artificial sobre a demanda por chips avançados.
Somente então a gestora iniciou compras de ações da Nvidia, movimento realizado quando boa parte da valorização já havia ocorrido.
A decisão foi interpretada por analistas como um reconhecimento tardio de que a transformação tecnológica provocada pela IA estava gerando oportunidades muito maiores do que as inicialmente previstas.
Expansão da empresa gerou questionamentos internos
Enquanto enfrentava perdas de desempenho e saída de clientes, a Polen Capital manteve sua estratégia de expansão.
Nos últimos anos, a gestora realizou aquisições de equipes e operações em diferentes mercados, ampliando sua presença internacional. A empresa também reforçou escritórios fora dos Estados Unidos e investiu na ampliação de sua estrutura.
Internamente, parte dos funcionários questionou a continuidade desse ritmo de crescimento em um momento de redução dos ativos administrados.
As decisões relacionadas a investimentos corporativos e expansão passaram a ser alvo de discussões, especialmente diante do cenário de cortes de custos e redução do quadro de colaboradores.
Caso da Polen mostra os riscos de ignorar a revolução da IA
A trajetória recente da Polen Capital ilustra os desafios enfrentados por gestores que ficaram de fora das principais tendências ligadas à inteligência artificial.
Enquanto empresas como Nvidia se consolidaram como símbolos da nova fase tecnológica, diversas gestoras precisaram rever suas estratégias para acompanhar a transformação do mercado.
O caso demonstra que mudanças estruturais podem alterar rapidamente o cenário competitivo e desafiar convicções consideradas sólidas por anos.
Para investidores, a experiência da Polen serve como um alerta sobre a importância de acompanhar novas tecnologias e avaliar constantemente se teses de investimento continuam alinhadas à realidade do mercado.