Ânima compra FMU por R$ 410 milhões e amplia operação no ensino superior privado

A Ânima Educação anunciou a compra da FMU por R$ 410 milhões, em uma operação que amplia sua base de alunos em 15% e aumenta a receita líquida em 11%.

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Última atualização:  15 de jul, 2026 às 12:20
Fotografia da entrada de um campus universitário da FMU. A fachada possui painéis de vidro espelhado que refletem a rua e prédios ao redor. Logo acima das portas de entrada, há uma grande faixa vermelha com a frase "BEM-VINDOS À FMU" escrita em letras brancas sobrepostas a uma imagem suave de estudantes sorrindo. Nas laterais, veem-se lixeiras cinzas e detalhes do saguão de entrada através dos vidros. Foto: divulgação

A Ânima compra a FMU por R$ 410 milhões em uma das principais movimentações do setor de educação superior em 2026. A operação, anunciada nesta terça-feira, amplia a presença da companhia no mercado paulista, aumenta sua base de estudantes em cerca de 15% e eleva a receita líquida em aproximadamente 11%. A aquisição também reforça a estratégia da empresa para aproveitar as oportunidades criadas pelo novo marco regulatório da educação a distância (EAD), que exigirá maior oferta de cursos no formato semipresencial.

Segundo a Ânima Educação, o pagamento será realizado em duas etapas: R$ 240 milhões serão desembolsados no fechamento da transação, enquanto os R$ 170 milhões restantes serão quitados em 31 de dezembro de 2029 ou três anos após a conclusão da operação, o que ocorrer primeiro. Considerando as dívidas da FMU, o valor total da empresa (enterprise value) chega a R$ 560 milhões.

A negociação representa o retorno da FMU ao portfólio da Ânima. A instituição havia sido vendida em 2020 para o fundo Camp Nou, administrado pela Farallon Capital, durante o processo de aquisição dos ativos da Laureate no Brasil.

Ânima compra FMU para ampliar escala e fortalecer operações

Com a incorporação da FMU, a Ânima busca ampliar sua presença em um dos mercados mais competitivos do país. A instituição possui seis campi na cidade de São Paulo, 214 polos de ensino a distância e aproximadamente 51 mil alunos matriculados.

A expectativa da companhia é que a integração permita recuperar a participação de mercado perdida pela FMU nos últimos anos, ao mesmo tempo em que amplia a eficiência operacional da instituição. Atualmente, a universidade apresenta margem operacional próxima de 20%, enquanto as instituições da Ânima operam entre 34% e 47%.

De acordo com a CEO da empresa, Paula Harraca, a escala do grupo permitirá ganhos importantes de produtividade, redução de custos e compartilhamento de estruturas administrativas, fatores que deverão contribuir para elevar a rentabilidade da FMU ao longo dos próximos anos.

Outro diferencial destacado pela executiva é a experiência da universidade em educação digital. A FMU reúne cerca de 24 mil estudantes em cursos de ensino a distância e outros 4 mil matriculados em programas semipresenciais, segmentos considerados estratégicos para o futuro do setor.

FMU chega após período de reestruturação financeira

Antes da aquisição, a FMU passou por um período de dificuldades financeiras. Após ser vendida pela própria Ânima em 2020, a instituição enfrentou queda em sua participação no mercado presencial da capital paulista, reduzindo seu market share de aproximadamente 9% para 6%.

A universidade também ingressou em recuperação judicial, processo que teve seu plano homologado pelos credores em fevereiro deste ano. Para a administração da Ânima, a reorganização financeira criou condições para uma retomada sustentável do crescimento.

O diretor financeiro (CFO) da companhia, Átila Simões, afirmou que a instituição preservou ativos considerados valiosos, como a força da marca, a tradição de quase seis décadas e a qualidade do corpo acadêmico, especialmente nos cursos de Direito e Saúde.

Nos últimos 12 meses, a FMU registrou receita próxima de R$ 280 milhões, EBITDA de R$ 52 milhões e margem operacional ao redor de 20%.

Mudanças no ensino superior impulsionaram a aquisição

Além do potencial de recuperação da FMU, a Ânima avalia que o momento regulatório favorece o investimento.

O novo marco da educação a distância determina que cursos como Saúde, Engenharia e Pedagogia deixem de ser oferecidos integralmente no formato online, migrando para o modelo semipresencial. A mudança deverá aumentar a demanda por instituições que possuam infraestrutura física adequada, laboratórios e experiência em ensino híbrido.

Nesse contexto, a FMU surge como um ativo estratégico. A universidade já possui estrutura preparada para receber estudantes em atividades presenciais e experiência consolidada na operação semipresencial, características que podem acelerar a adaptação da Ânima às novas exigências do setor.

Para a companhia, essa combinação entre infraestrutura e conhecimento operacional permitirá capturar oportunidades de crescimento nos próximos anos.

Mercado acompanha impacto financeiro da operação

Apesar dos benefícios estratégicos apontados pela administração da empresa, parte do mercado financeiro recebeu a notícia com cautela.

Analistas do Citi avaliaram que o múltiplo pago pela aquisição ficou acima daquele em que a própria Ânima é negociada na Bolsa. Enquanto a transação considera um múltiplo de aproximadamente 10,6 vezes o EBITDA, a companhia possui avaliação próxima de 3,3 vezes EV/EBITDA no mercado acionário.

Segundo o banco, essa diferença indica que o valor desembolsado pode ser considerado elevado sob a ótica financeira. Ainda assim, o múltiplo cai para cerca de 6,7 vezes quando consideradas as sinergias projetadas pela empresa após a integração da FMU.

A expectativa da Ânima é que os ganhos de eficiência operacional, a expansão da receita e o crescimento da margem justifiquem o investimento ao longo dos próximos anos.

Aquisição eleva alavancagem, mas empresa prevê redução

A compra também produzirá impacto temporário na estrutura financeira da companhia.

A relação entre dívida líquida e EBITDA deverá passar de 2,39 vezes, registrada ao final do primeiro trimestre, para aproximadamente 2,73 vezes após a conclusão da aquisição.

Mesmo assim, a administração afirma que pretende retomar rapidamente o processo de desalavancagem por meio do crescimento da geração de caixa, do aumento do EBITDA e das sinergias obtidas com a incorporação da FMU.

A Ânima encerrou o primeiro trimestre com aproximadamente R$ 1,8 bilhão em caixa e atualmente possui valor de mercado de cerca de R$ 1,17 bilhão. Nos últimos 12 meses, as ações da companhia acumulam desvalorização de aproximadamente 22%.

Com a aquisição, a empresa reforça sua estratégia de consolidar operações em um momento de transformação do ensino superior brasileiro, apostando na recuperação da FMU, na expansão do ensino híbrido e no ganho de escala para fortalecer sua posição entre os maiores grupos educacionais do país.